domingo, 3 de julho de 2016

das encenações...

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"o êxtase da boca
aberta pelo espanto
desarma o amargo"
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light essence




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"as bençãos de Deus tem muitos disfarces"
Claudia Barral in Hotel Jasmim

acompanho
todas
as falsidades
enquanto
as verdades
não aparecem
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Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, 
todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, 
tivemos que pedir muito pouco à imaginação, 
porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais 
para tornar nossa vida acreditável. 
Este é, amigos, o nó da nossa solidão.
Pois se estas dificuldades nos deixam - nós, que somos da sua essência - atordoados, 
não é difícil entender que os talentos racionais deste lado do mundo, 
extasiados na contemplação de suas próprias culturas, 
tenham ficado sem um método válido para nos interpretar. 
É compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, 
sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos.
A interpretação da nossa realidade a partir de esquemas alheios 
só contribuiu para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, 
cada vez menos livres, cada vez mais solitários. 

Este é o tamanho da nossa solidão.

E ainda assim, diante da opressão, do desamparo e do abandono, nossa resposta é a vida. 
Nem os dilúvios, nem as pestes, nem a fome, nem os cataclismos, 
nem mesmo as guerras eternas através dos séculos e séculos 
conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte. 
Diante desta assombrosa solidão, 
que através de todo o tempo humano 
deve ter parecido uma utopia,
 nós, os inventores de fábulas que acreditamos em tudo, 
nós sentimos no direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde 
para nos lançarmos na criação da poesia contrária. 
Uma nova arrasadora poesia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros 
até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor 
e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão 
tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.
Quero crer que o que salva, que esta é, uma vez mais, uma homenagem que é rendida à poesia. 
À poesia, por cuja virtude o inventário assustador das náuseas 
que o velho Homero enumerou em sua Ilíada está visitado por um vento 
que as empurra a navegar com sua tristeza intemporal e alucinada. 
À poesia, que retém, no delgado andaime dos tercetos de Dante, 
toda a fábrica densa é colossal da Idade Média. 
À poesia, que tão milagrosa totalidade resgata a nossa coragem 
e onde se destilam nossas tristezas milenares, 
nossos melhores sonhos sem saída. 
À poesia, enfim, a essa energia secreta da vida cotidiana, 
que cozinha seus grãos e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos.
Em cada linha que escrevo trato sempre, 
com maior ou menor fortuna, 
de invocar os espíritos esquivos da poesia, 
e trato de deixar em cada palavra 
o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação 
e pela sua permanente vitória contra os surdos poderes da morte. 
Entendo que o que pode nos salvar sempre  
e como a única prova concreta da existência 
do homem seria sempre esse respaldar das palavras: 
a poesia.

Adaptado do discurso de Gabriel Garcia Marquez ao receber o Prêmio Nobel em 1982
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"as chances que duas criaturas têm de se entenderem bem 
não é medida pelo número de afinidades 
e sim pelo número de saudades que têm em comum.
........
quais são nossas saudades divididas?"
Claudia Barral in "O Cego e o Louco"
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foi ali na fumaça dos dias 
onde eu estive
em ter que enfrentar
certas situações 
que me causam um medo
irracional
e nem sempre
existe alguma coragem
para acompanhar 
feito carro sem freio
despenhadeiro
viaduto
suicídio 
água de esgoto
dessas coisas sujas
escapo
sempre
por
pouco
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como ser um poeta?
brigue por dentro 
depois faça as pazes 
e se vire
em
poesia
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mas parece
que amar
muda
a medida
das
coisas
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diálogo I & II

I

desabita
à concha-prisão
e rompe
no ímpeto 
a casca
grossa
dos
machucados
de outro
tempo

II

desencontra
à meia-luz
e rompe
no ímpeto 
a leve
casca
de
ilusões 
de outros
tempos

tudo tem que 
ir
tudo tem que
dar
tudo tem que
revidar
na vida

Julio Carvalho e Vini Miranda
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that ship has sailed*

por acaso 
hoje é tristeza
quer dizer que ...
amor
são dois, três 
ódios consecutivos?
e a vontade
de remar
a soma dos ódios 
induz força 
aos remos
estaremos prontos
para atracar
assim que
acabarem as ondas
e essa tristeza 
ficar à beira
mar

Julio Carvalho e Michelle Della Torre


*
















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sua ausência 
em meu estômago 
causa algo viscoso
e negro
entre
outras 
coisas
o
medo
a ausência
o negro
é força pra superar
para se tornar mais forte
guerreiro
a luta
é fato
em cada
instante
de
vida
e eu
te espero 
como promessa
para superar
a escuridão

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ama-me
além
do
claustro
e das
algemas

queira-me
livre,
espirito
da natureza.

deseje-me
solto
voltando
aos
teus
braços

liberte-me
até 
que eu possa
voar

Espirito-liberdade - Vini Miranda/Julio Carvalho
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enquanto
as
feras
não 
andam
soltas
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