sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

das cavalgadas...


"eu acho que
o medo do não ter
do não ser
de ficar para trás
de ficar sozinho
pode nos fazer entrar
em barcos furados
na pressa de não
perder a viagem"

Clara Baccarin

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#homensraros



























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muita gente que morreu voando
/
eu às vezes
morro terrestre
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lugar comum
/
gente que ama meninos e meninas
mas não ama a si mesmo
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insan_idades
tempo
ressuscita os vivos
pela memória
encharca os tecidos
amolece as pedras e
de volta
só me reconheço
nas dobras dessas coisas
amáveis
com o único propósito pelo que
aconteço
carne e osso
são demasiado
pouco
foi quando eu encontrei
no meio dessa coisa toda
uma palavra
louco
(começando a história
outra vez)

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"Nossas ideias se reproduzem em torno de ausências afetivas. Estudamos e lemos com uma voracidade incrível para entender o mundo e as pessoas, sendo que estas nunca se apresentaram... nunca disseram oi! Estamos aqui. Desta forma vamos inflando em conhecimento e possibilidades mil se apresentam, junto com quilos de ansiedade e tudo isso é um incremento de nosso único canal de comunicação com o outro...nossas ideias. Acontece que este outro está cada vez mais distante e rarefeito, o que nos impulsiona a jogar mais potência na antena... precisamos achar vida no planeta Terra! Não podemos falhar com pessoas rarefeitas, pois se errarmos elas desaparecerão! Não podemos errar... nunca! Se perdermos esse amigo, namorada, cachorro... como será?"
in

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quem se perde neste mundo
vende seus nadas
rapidamente
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o meu próximo poema 
não mora comigo
não me habita ainda
casa mal feita
sobre terreno 
de palavra
baldia
o meu próximo poema
está no meu umbigo
encarcerado
nos tímpanos
quero mesmo dizer o que sinto
acho que sou um poeta de ouvido
e dividido em ritmos
até os próximos
trilhos

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declarações de amor
/
somente o que é infinito
pode saber de outro infinito

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sou poeta de
tudo um pouco
e muita vez de
muito teimoso
um que passa
o bagaço do
mundo pelo verso
até virar fumaça

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de modo que aquilo a que chamamos aventura poética é difícil
perigoso e
seja como for
nunca garantido
/
ainda bem

não se trata
de por uma vida
à serviço da poesia
trata-se
de por a poesia
à serviço da vida
só assim a poesia
não trai o seu objetivo
a nossa época
já não tem de escrever instruções poéticas
tem de as executar
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cada um tem o facebook que merece
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nosce te ipsum












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con
sumir
com (a)
moderação

/
Sofrósina
Sofrósine (do grego Σωφροσύνη, translit.sôphrosýnê: "moderação") era uma Daemon que personificava a moderação, a discrição e o autocontrole, portanto era oposta a deusa Afrodite, que incita as paixões desenfreadas. Sua equivalente romana era Sobrietas, a sobriedade.
Era um dos Agatodaemones, espíritos benéficos, que escaparam da caixa dePandora, quando ela a abriu. Sofrosine então fugiu para o Olimpo, abandonando definitivamente a raça humana. Segundo Higino ela era filha de Érebo e Nix.
É também um conceito grego que significa sanidade moral, autocontrole e moderação, guiados pelo autoconhecimento. Mais tarde o conceito foi ampliado para incluir a noção deprudência, e era associado à doutrinaapolínea do "nada em excesso" e do "conhece-te a ti mesmo". O termo sugere a conquista de uma vida de felicidade obtida quando as necessidades filosóficas de alguém são satisfeitas, analogamente à ideia de iluminação conquistada com uma vida harmoniosa, e encontra paralelo em conceitos do Hinduísmo, Budismo e Taoísmo.

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filosofia sobre
a felicidade de gênios
e demônios 

/
Eudaimonia
A palavra é composta por "eu" ('bom') e "daimōn" ("espírito"). Trata-se de um dos conceitos centrais na ética e na filosofia política de Aristóteles, juntamente com "areté" (geralmente traduzido como "virtude" ou "excelência") e "phronesis" (frequentemente traduzido como "sabedoria prática"). Na obra de Aristóteles, a palavra 'eudaimonia' foi usada (com base na tradição grega mais antiga) como equivalente ao supremo bem humano - sendo o objetivo da filosofia prática - incluindo a ética e afilosofia política - definir o que é esse bem e como pode ser alcançado.
As relações entre virtude de caráter (ethikē aretē) e a felicidade (eudaimonia) constituem uma das principais questões da ética, entre os filósofos da Grécia Antiga, havendo muita controvérsia sobre o tema. Em consequência, há também diversas formas de eudemonismo. Dentre essas formas, duas das mais influentes são a de Aristóteles e a dos estoicos. Aristóteles considera a virtude e o seu exercício como o mais importante constituinte da eudaimonia, mas reconhece também a importância dos bens externos, como a saúde, a riqueza e a beleza.
Já os estoicos* consideram a virtude necessária e suficiente para a eudaimonia e, portanto, negam a necessidade de bens externos.
Daemon (em grego δαίμων, transliteração daímôn, tradução "divindade", "espírito"), no plural daemones (em grego δαίμονες) é um tipo de ser que em muito se assemelha aos gênios da mitologia árabe.
A palavra daímôn se originou com os gregos na Antiguidade; no entanto, ao longo da História, surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é daemon, que veio a dar o vocábulo em português demônio.
São deuses de determinadas entidades da natureza humana, como a Loucura, a Ira, a Tristeza, etc. Xenócrates associava os deuses ao triângulo equilátero, os homens ao escaleno, e os daimons ao isósceles.
Seu temperamento liga-se ao elemento natural ou vontade divina que o origina. Não se fala em "bem" ou "mal". Um mesmo daemon pode apresentar-se "bom" ou "mau" conforme as circunstâncias do relacionamento que estabelece com aquele ou aquilo que está sujeito à sua influência.
*O estoicismo foi uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio no início do século III a.C. Os estoicos ensinaram que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, da relação ativa entre determinismo cósmico e liberdade humana e a crença de que é virtuoso manter uma vontade (chamada prohairesis) que está de acordo com a natureza. Devido a isso, os estoicos apresentaram sua filosofia como um modo de vida e pensavam que a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não era o que uma pessoa diz mas como essa pessoa se comporta. Para viver uma boa vida, era preciso entender as regras da ordem natural, uma vez que ensinavam que tudo estava enraizado na natureza.

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no meu peito uma pedra
feito palavra veio cair
pesada!
pronto: eu nem esperava
ainda sou capaz de resistir
hoje há muito que fazer
devo matar a lembrança
à alma dar pedra
ou substância
e reaprender a viver
ou
o verão chegado
tantos outros enganados
pelo descaso do peso
venho há muito observado
luz noturna
alma vazia

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no poema
a cidade
barulhenta
e a noite
lenta
entre meus pés
em alguma calçada
o asfalto
nu

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sabe, estive lendo
que é eterna nossa alma
e eu não entendo
até onde
permanece
o meu canto
penso que iguala um poema
infinito até que
palavra
eterno até que
sentimento
penso

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dia primeiro. quinta-feira. é noite!
no escuro uns contornos de cidade.
algum vagabundo escreveu
que na terra pode haver amor.
e por tédio ou preguiça,
todos acreditam e assim vivem:
esperam encontros, temem adeus
e cantam canções de amor.
mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles...
descobri isto por acaso
e desde este momento
sinto-me indiferente.
adaptado de Anna Akhmatova

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o amor visto do espaço
o sistema
solar
insular
envolto
em estrelas
tão longínquas
- quão longínquas são as estrelas
planetas desabitados
iguais a certos
corações
limitados
pelos anos-luz
na verdade sem nenhuma luz
ilhados
em galáxias de enganos
indecifráveis mãos
sem carinhos
sem opostos
sem nenhuma escolha
entregues
aos seus
buracos
negros
densos
até que se explodam
antes de serem explorados
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registro novo
um amor
arrastado
pelo um som de um caminhão
do lado
de fora
do meu quarto
às 23 horas do dia
primeirodedezembro
de dois mil
e dezesseis
enquanto
na galáxia eme trinta e um
a dois milhões e duzentos mil anos-luz de distância
extingue-se uma estrela

adaptado de F. Gullar
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queria e quero
almejo
peço
a mudança do rumo das coisas
contidas
dentro
da palavra
breve
é um espaço
espesso
onde o tempo
não manda
quero
esse espaço
ansiosamente
agora



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venho de não muito longe, trago o pensamento
banhado em velhos rios e montanhas
arrasto árvores desfolhadas pelo vento
e águas carregadas de agonias.
provenho desses lugares esquecidos
nos roteiros de há muito abandonados
e trago na falha retina, diluídos
as misteriosas lembranças não tocadas.
retenho dentro da alma, preso às margens
todo um rio de margens e de vozes
e ainda procuro no horizonte o sol
onde sonham morrer alguns pássaros
venho de longe a contornar a esmo
esses rios das lembranças de mim mesmo


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"vês que a razão
seguindo o caminho indicado pelos sentimentos
tem asas curtas"
Dante Alighieri






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vento
é o que
vem
acontecendo
enquanto
respiramos

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black friday
consumo
.COM
subindo
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digito ergo sum
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conhecendo
alguém
ao
acaso
com cuidado
/
bem-vindo
ao
atual
raso
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auto-engano
/
sensibilidade
atrás
da
porta
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"A verdadeira dificuldade 
não está em aceitar idéias novas, 
mas escapar das antigas."

John Maynard Keynes
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"ser legal 
é algo que os burros fazem 
para aliviar
suas escolhas"

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no princípio
era o verbo
sim
com o tempo
o não
interveio
e sem desculpas
sumiu
no meio
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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

das heresias...

vou da poesia 
à heresia

















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coisas bem fáceis

olhar nos olhos
até se perder
de vista

tirei os sapatos 
para desandar

poema é coisa que se arruma
dentro da desarrumada vida

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meu desejo não consegue 
se alimentar de sobras
nem de
sombras

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dali do canto do olho
saiu 
de repente dele
uma lágrima 
poética 
onde se consumou
a palavra
que iniciou
esse poema


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estou com dor nas pernas
se eu fosse um pássaro 
seriam dores 
nas penas

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até minha língua 
tem origem
poética

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todo desejo
é uma forma de oração
se não acontece
é sepultado
viajo na velocidade
dos meus desejos
e visito minhas sombras
entendendo
os desejos
como mantras
calo um a um
desejos calados
imunes
às paixões
mas a carne é franca
desaperta e solta
o desejo-fênix
que não se queima
e dos séculos
renasce

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o rosto
é um lugar
onde os sentidos 
mostram o significado 
da carne

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odeio gente gentil
gentileza não é coisa natural
é sem princípios
gentileza é invenção de vendedor
valorizo gente verdadeira
e a atenção e o cuidado
que se enraízam em sentimentos
deixam de ser gentileza
são
atenção e cuidado
verdade
da verdade eu gosto
ao menos da minha verdade
a verdade é quando reconheço
os olhos
os olhos sempre ficam
testemunhas
o rosto muda em volta
transforma-se
abre poros novos para respirar
a boca também muda
esquece palavras
troca sílabas
fabrica vincos ao redor
para não sorrir
mas os olhos
se mantém
intactos

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testemunha

do corpo de delito
ao corpo de luto
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paradoxal
além de calar 
é possivel mentir 
sair impune 
mesmo sob juramento
não sei
não vi
não fui eu
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amores secos
securas sem amor
mesmo que tivesse riso
muito
nenhuma
assim de alma em branco
mais para ser bravo
mesmo num canto
e tanta secura assim
é que nem chão de rio
abre umas rachaduras
a terra escancara as carnes
sem sangrar
separa as coisas
tudo escorre para longe
até perder de vista
uma margem sem ver o outro lado
pedaço de terra que desgarra
vaga para mais longe ainda
umas ilhas boiando no mar
pedaços sem serem um do outro
aí vem a busca
em outro lugar
outro território
aprender outra língua
desaprender a antiga
economizar encrenca
recuperar até achar o lado
de lá
seu próprio lado
inesperado
ali solto
sem algemas
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con
senso 
humano
eu bem digo
essa coisa não 
con
tenho
nunca
mais
denso
#tenso
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no princípio
era o verbo
sim
com o tempo
o não
interveio
sem desculpas
sumiu
no meio


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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

das limitações...

.
"para que este sopro não nos abandone, 
tratemos de revesti-lo com palavras, 
alegorias, 
pensamentos e encantações."

.





























dias de festa 
dias de cores
fáceis
onde
o
sol
segure
se
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nebulosa

por tempo limitado
sons recorrentes
dei-me afoito
às desorganizações
interrompendo
o voo
dos vaga-lumes


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ocultar bibliotecas 
até a morte
dispor poemas
em estantes
instantes
são 
pontes

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eis o mundo
do lado
de
fora


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"gente
vem com a gente
o trem nascente vai com carga
o trem nascente vem com gente

o trem nascente é o trem de sempre
chega terça volta sexta
passa o campo cruza a ponte
na fumaça no vapor
o trem nascente é o trem pra longe
toca apito e a bitola
recomeço na sacola
esperança no motor"
João Paulo Vereza

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vizinhança

manhãs adiadas
enquanto deus
não abandona o DNA
acordo
com areia
nos dentes
percebendo
quem mora
ao
lado

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um dia eu volto
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nada a não ser luz
onde fica
qualquer
memória

evitar
a secura que cresce
até tocar o céu
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vamos seguir
o outro mundo
o outro muro
do outro do lado
o outro amigo
desconhecido
vamos fazer amizades
com o desconhecido
aquele que menos se parece
comigo
vamos dar liberdade
vamos dar mais vontade
de escapar do incerto
insetos que somos
voando em torno
de luzes
vamos dar outras chances
para a escuridão
de desconhecer
o outro
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"eu sei que o mundo tá se despedaçando 
de um jeito sinistro ultimamente
mas
que se foda o mundo...
apenas me abracem 
e vamos nos amar enquanto tudo explode lá fora."

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pega tudo
joga fora
faz de novo
repita
a
estética
anestésica
para as dores do mundo
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Adrienne Myrtes










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a palavra certa
reverbera
porque se verterá em outra
boca
aberta
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"existir é uma pergunta 
que queima sem resposta"
Claudia Barral 
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com
Dona Rosália 
aprendi
a
dançar conforme
a música
arrumando
os porões
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céus
em
quatro
tempos
seus
aos
quatro
ventos
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clicamo-nos
mas não 
tocamo-nos
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"eu me busquei no vento e me encontrei no mar
e nunca
um navio da costa se afastou
sem me levar"
Sophia de Mello Breyner. "Eu me perdi". 

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olhando direito
qualquer teclado
é um
dicionário
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quase tudo
quase todo
o que expresso
tem um
direto
no peito
ou tem
avesso
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