domingo, 29 de novembro de 2015

das conexões...

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"escrevo luar, calmaria
brilhos secos 
    nos olhos – na estrada
    da maresia... "
Ondjaki
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coisas
ordinárias
como
conexões
alheias
em mundos
paralelos
...................................................................

não quero mais perder o que me foi dado
quero alguém para decorar as águas do meu rio
com as folhas do meu novembro perturbado
guardo meu tesouro oculto
deixarei essa cruz 
e meu sofrer molhado
nesse dia
voltarei
feito
imenso
mar
...................................................................

meu sangue mais oculto
se esconde
sob
meus olhos
não pulso
sem escaldar
a luz
entre tantos
sóis

escuto
o
sangue
saltar
aos
gritos
e ver o pulso
cortado
jorrar
claridade
...........

sábado, 28 de novembro de 2015

das suspensões...

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"quando vê o ipê florido
acontece do poeta
pensar com o corpo
é que a carne pesa
e o músculo manifesta
seu querer ser flor
aflorar, florescer
deflorar o dia
revelar-se
na flor insólita
do poema"

Dado Amaral "quando vê o ipê florido". 
In:_____. Poeria. Rio de Janeiro: 
Mundo das Ideias, 2012.
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pleno voo
liberta
libélula
alheia
à 
tudo
suspensa
soma
o ar

asas
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estou vendo o outro
como o não ver em mim
como pedaços
e metáforas
isoladas
ilhas distantes
lendas
e paisagens
o mar é meu olho aberto
não tenho distâncias
empresto
a vida
sem aguardar
surpresas
deixo o tempo
acontecer
suspenso
...................................................................

a memória 
também 
espalha
o que ardeu
como
palha
a palavra 
que fica 
como mera memória 
depois de ser 
dita
falha
...................................................................

a maçã versátil 
tem na cabeça 
a descoberta 
da gravidade
e na boca
a descoberta
do pecado:
a maçã 
é uma 
invenção 
original
...................................................................

o dia é um espasmo
a noite é um espanto 
cada ano é um espaço 
de tempo
muito estranho
o sol erra a lua
de tamanho
e nem no infinito 
se entendem
nos enganos
as horas 
indiferentes
passam
...................................................................

a raiva 
triturada 
em pó 
é a mágoa 
e não é dor
que se 
cheire
...................................................................

uma memória sem calos
não guarda amor
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você é você 
essa passagem entre
a carne 
o tempo 
e o osso
...................................................................

para Nanete Neves

o hífen 
é uma onda
difícil 
de surfar 
ele quebra
as palavras
e confunde em que
praia da palavra
se encaixa
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a vida ensina 
num sapato
um nó mal feito
causa um embaraço 
um tombo feio
por causa
de um só 
laço
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se qualquer garganta
pode conter um dicionário 
escolha a palavra silêncio

classe gramatical: interjeição e substantivo masculino

um homem só 
calado
diz
muito
...................................................................

o nada 
está em falta
no bazar do zero
não se fazem contas
de subtrair
e o que se leva
é sempre nulo
isso acontece
também 
algumas vezes
com as gentes
que se vendem
insistentemente
com as almas 
vazias
...................................................................

o tempo é um carvão 
determinado 
que não risca
nenhum chão 
sopre o tempo
e o amor
e observe:
eles acendem
e queimam 
vida
sou de cinzas
por isso
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falar de uma rosa
é considerar espinhos
falar de amor 
é sentir o espinho
na carne 
sem nem perceber
...................................................................

uma ampulheta de fogo
queima o tempo
e o vidro vaza
a areia fica de fora
sem contar hora nenhuma 
é aí que a vida
passa
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será que o espelho é ruim
ou sou eu que 
esvaziei-me
de mim?
...................................................................

se as estrelas cadentes
fossem borboletas 
de várias cores
teríamos desejos
em forma
de flores
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o pensamento é uma vaga luz
um vaga-lume
em cada olho
passa tão rápido 
assim
voando
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trem mineiro

o trem e a esperança 
perdidos. por enquanto
ciência que nunca tive
perdi tempo fazendo hora
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vida
que 
sempre
que
quase
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eu vejo tudo com certa futilidade
menos a poesia
essa não me limita e me deixa sempre
de portas abertas
é tudo muito grande 
e essas grandezas me preenchem
como se eu não precisasse de mais nada
ainda persigo a emoção definitiva
essa mais difícil
essa que um dia espero 
encontrar em algum outro
algum ouro é possível
mas desenterrar exige
entrega
e isso
só quando um outro
for
inteiro
e entender
as possibilidades
em mim
...................................................................

meia cara
meia vida
meio ao meio
meio tenso
meio preso
ao medo
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"esse minuto 
que sofro
consiste em:
mas não passou de um engano!?
num outro minuto
em que me acalmo
consiste numa xícara
tomemos um café!
a vida é repleta de enganos...
e cada gole são suas mãos 
passando os dedos
em meus cabelos
meus medos
todos
varridos da minha cabeça
até que 
de engano 
em engano
a esperança pouse
logo adiante 
pela
manhã"

com Michelle Della Torre
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terça-feira, 24 de novembro de 2015

das relações...

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"saber a realidade 
pode significar duas coisas:
um. continuar se enganando
dois. ou tomar uma atitude"

Jessica Jones
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os caras

só o desconhecido
ou um assalto do tempo
pode explicar
certos encontros
(aqui confesso um certo medo do entendimento)
eu ser desconfiado
não lamento
mas observo
a forma que esse poema 
teria que tomar
não um relato mas um fato
da vida presente
ou um aprendizado
que eu eterno
poeta
existo
cheio de receios indago
pessoas
entendo que elas existam
para ensinar
(eu tenho medo de tudo)
do assalto
do monstro
da rua 
e de dentro de casa
mas esses caras 
com as portas abertas
existem
aos poucos
aos pingos
me olho por dentro
os caras por fora
aprendo
(a confiança para mim requer sensibilidades)
(o afeto para mim requer vínculos)
por isso uma certa reserva nos olhos
e uma outra paixão curiosa por outros
os olhos que os digam
lentamente
reconheço
as pontes
e as passagens
escuto as vozes
e na minha pouca luz
invento
esses caras de fora para dentro
o mesmo receio que me cobra
me liberta
eu tento
mas liberto
participo
dos olhos e vozes
e sinto
os caras passando
ou eu ranzinza
ou eu intenso
a fumaça ultrapassa o entendimento
só sei lutar com o coração
(mesmo com medo)
sincero
falo o que penso
e aprendo
dos caras que falam
do meu próprio
espelho
e se entendem
e estendem conversas
em sentidos
diversos
palavras trocadas 
humor ácido
e o álcool fervendo
a casa se abre
como um mundo imenso
os caras misturam
quase sem saber
intenções e tempos
(eu sinto ciúmes quando não entendo)
e quando é mistura de gentes
e coisas e almas diferentes
nem uma avenida
nem uma noite
nem tantos cigarros
definem
isso
o que se passa entre as certezas
(um cara)
as crenças ingênuas
(outro cara)
e as sensibilidades
do poeta
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quero te 
(re) ver

(re) ter
os seus olhos
nos meus
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ontem perdi um amigo
que já estava perdido
dentro
dele
mesmo
algumas 
perdas
são ganhos
necessários 
a dor
é grande 
mas o tempo
dói 
menos
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"eis a história de quem
se parte a espinha dorsal
limpo como se fosse 
coisa mental
único remédio: sair
à luz-metal do sol
respirar o ar sujo de tudo"

Sebastião Uchoa Leite
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mudar significa
passar pelas águas
do esquecimento
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não
quero a linguagem
como mecanismo
de 
troca
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o atravessado
das coisas
chorando na vida
em dias 
de chuva
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cabeça.1, tronco.2 e asas.3

1.minha cabeça
dói um pouco
acima 
do pescoço

2.o coração é terapêutico
não se mata
um sentimento
sem medo

3.eu ando voando
como corvos
com o céu
aberto
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"eu é que estou cá
por trás dos óculos
praticando o prazer
de achar bonito
o líquido
o sólido
e o infinito"

Renato Rocha
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"desespero 
não pode amar
pode apenas
violentar"

in "Tudo o Que Vive é Sagrado"
William Blake 
D.H. Lawrence 
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poema suspenso 
para uma cidade
em queda
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eu ranzinza
e muito sangue
num acúmulo
de menos vida
entre apegos
e portas fechadas
onde aqui dentro
me protejo
a sete palmos
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"poetas são perdedores
o frio aos poucos se instala
como o sol perde calores
cada palavra
nos cala"

Renato Rocha
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por pouso
releitura dos poemas de André Vareio

abro o jornal
na seção de terremotos
e me identifico
com crateras
em cada uma faça
pesque
enraíze 
e folhe-se
como letra
pois
a letra
é substrato da página
e a página
o porto
e o aeroporto
da palavra
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das confusões...

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"quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.
este amor é de guerra. (de arma branca).
amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca.
quatro letras nos matam quatro facas.
armado estou de amor. E desarmado.
morro assaltando morro se me assaltas.
e em cada assalto sou assassinado.
quatro letras amor com que me matas.
e as facas ferem mais quando me faltas.
quatro letras nos matam quatro facas."

As facas - Manuel Alegre
In:_____. Coisa amar (coisas do mar). 
Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1976
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animais
são livros
de quatro
patas
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essa poluição toda
produzindo 
borbolentas
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entre
o desejo 
do outro 
de mim
e dos mesmos
............................................................

seres
rebeldes 
na busca
da poesia
íntima
............................................................

"desoriento-me
sem qualquer
método 
ou sem
qualquer fim
vou e não vou
mas vou
caio sem qualquer 
alarde 
o que é
e não é: mas é 
desorientar-me
é meu anti-método"

Sebastião Uchoa Leite
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milhões de vezes
me viro
para o lado dos meus sonhos
evitando 
respostas
............................................................

vazios de coisas
que
contém glúten 
mas não contém 
ar
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dias em que
viver 
é ter um veneno
em tempo 
real
............................................................

o verde do mundo
agora 
é um escarro
ardente 
da civilização
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sair por aí 
a cumprir 
solenemente 
um purgatório 
cínico
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quando algo é 
perfeitamente
sério 
me faz mais
cético
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meu enunciado 
é em pedra
para exemplificar
temores 
como represas
temo que amanhã 
seja mais difícil 
apelar para a caridade
vai ter muita boca seca
implorando água corrente
e muita terra podre
contaminada
sem gente
meu enunciado 
é em pedra
para ficar 
permanente
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dê um quando
no seu calendário
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saio de casa
para desaguar
na chuva
em dias assim
o meu silêncio 
fica 
em
gotas
............................................................

a soma secreta
enquanto engulo
a rotina
das contas do dia
repondo meus saldos
a poesia que faço 
agrava
sentimentos expressos 
como um rascunho
uma dor entre palavras
camuflando o medo
na boca do estômago 
falta tanto aconchego
que até o esquecimento
adormece 
e fico a noite toda fora
aguardando estrelas 
até quando
no despertar
eu viro
manhã
............................................................

chuvisco faz bem 
para lavar a alma 
aos poucos
............................................................

lanço-me
na peripécia dos desencontros 
enquanto lanço 
distraio
a lama por dentro
subo rios
intermináveis 
a roupa suja
atiro no chão 
e a pele saudável 
respira
limpa
ecologicamente 
poética
....................