terça-feira, 21 de dezembro de 2010

das revelações...

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"Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada."

David Mourão-Ferreira
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poetic
visceral
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a violência do nosso desejo

aparei as mãos
só pude perceber salva as lágrimas
passadas
e um corpo úmido no meu colo
desastre tardio não abarcado pelo sentido
não deu tempo de perceber o acontecido
quando se viu já era um choro

mas tudo aquilo que me move
ainda não foi perdido
nem conto perder
todo prumo se perde de vez em quando
mas isso não conta quando muito é parte
vontade

como se espera um equilíbrio
a partir disso?

o corpo nunca obedece o desejo...
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Um comentário:

Leonardo B. disse...

Por minha grande falta de jeito, mas com o desejo de também partilhar o espírito desta quadra, partilho de Vitorino Nemésio, um outro Natal,

«Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.»

Com um sincero desejo de uma quadra plena,
Um imenso abraço,

Leonardo B.