segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

dos desfiles...

.
"um poema
desfilando
igual vento
rápido na janela
batendo na cara
escancarando
portas"

Julio Carvalho
.

Sobre foto de Rick Barneschi

















mau hábito
é não beijar
mau hálito
é não deixar

o beijo não tem hálito
é hábito
............................................................

mira na palavra e atira
feito cupido
só que não é pra fazer amor
algo mais perto
poesia
............................................................

eu sempre tive
teclas e cordas
atravessadas
na garganta
meus sons
são de memórias
música de cabeceira
não se esquecem acordes
em gavetas
eles ecoam
quando uma só nota
pulsa
............................................................

procuram-se
versos de amor com intenções de sorte
linhas inúteis mas com tom de paixão
palavras tolas para o amor dos loucos
e que no amor não se venda a espera
dos amados que se encontrarão
na esquina
na rua 
na beira do poste
sob a luz
de uma estrela 
da falta de educação
do esbarrão
inocente
mas os olhos

(ha os olhos!)

esses não escaparão
............................



............................................................

dos acessórios...

.
"chega
do espelho
diário
e do coração
otário"


Julio Carvalho
.
















tendencioso
sexo sem amor
substância sem conteúdo
absurdo
onde o colorido
é disfarce de amizade
se eu vivesse só assim
perderia
outra cor
outros carinhos
encontraria
outras maneiras de ferir-me
e atirar
meus sapatos
roupas
perfumarias e acessórios
fora
pela janela
e meus olhos seriam sempre
cheios d'água
um céu de falésias
eu me apaixonaria
pelo vento
e os corpos
seriam círculos
num jardim
público
.................................................

procuram-se:

versos de amor com intenções de sorte
linhas inúteis mas com tom de paixão
palavras tolas para o amor dos loucos
e que no amor não se venda a espera
dos amados que se encontrarão
na esquina
na rua 
na beira do poste
sob a luz
de uma estrela 
da falta de educação
do esbarrão
inocente
mas os olhos

(ha os olhos!)

estes não escaparão
.................................................

sábado, 20 de fevereiro de 2016

das orgias...

.
"quando não escrevendo nada
ser mais poeta do que nunca
todo antenas poros sentidos
ser que se trespassa de tambores
a palavra antes da palavra"

Fernando Abreu
.
Religulous - Sobre foto de Rick Barneschi












































a orgia é algo estranho
alguém solta gritos 
de repente
atrás de algum passante
cujo corpo se encheu de coragem
como uma árvore
quando sente
perto do seu tronco
o rugir da moto-serra

mas não se volta o rosto
- diz o homem
talvez o beijo seja
para outra pessoa
em todo caso
tem ainda o descaso
da distância
de alguns passos

e se ouve algo estridente
atrás de todos
os participantes
que se fazem azuis, amarelos, verdes e vermelhos
e seguem adiante
impassíveis
sem se importarem
com absolutamente
nada
.............................................................

que fazem mais do que não prazer?
e talvez pensem
amanhã tenho que trabalhar
amanhã tenho um casamento
amanhã vejo meu filho
mas naquele momento
religioso
a orgia
plena
reza
um 
gozo
.............................................................

carregamos 
o mundo das coisas
nas costas
como responsabilidade
e como se fosse
um rastro
deselegante
pense por três dias
em tudo o que usou:
o que não pensou
descarte

as coisas 
são responsabilidades
variáveis
.............................................................

ego 
esse respingo de água
que eu bebo
em lágrima
.............................................................

tive um dia ensolarado
que depois virou chuva
e no fim
não era o dia 
e nem nada
era 
eu

.........

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

das geometricidades...


"a poesia como uma flecha que faz curvas"
Julio Carvalho
.
geometricidade - Julio Carvalho













































andando pela avenida
geometricamente
as linhas retas
dos prédios
se alinharam
educadamente
abriram os semáforos
(todos em verde)
uma passagem breve
e os shoppings centers
sorriram com seus dentes
de escadas rolantes
indispensáveis
lojas de departamento
se entreolharam
e os passos acelerados
dentro dos departamentos
se repartiram em setores
masculinos, infantis, femininos
severos
para na santa dificuldade 
de se encontrarem lugares,
se façam gastos maiores
e nem é culpa da avenida
vendida:
só faz atravessar
a cidade
correndo o risco
de ser
asfaltada
...................................................

líquido 
me livro
das
pedras
buscando o infinito
que existe
na água 
corrente
...................................................

eu coloquei 
o amor
no meio
de um carrossel
sem cavalos
as recordações
dando voltas
aos pulos
...................................................

era solo
o que me
falta
va
...................................................

me cama que eu vou
me reclama que eu deixo
me alcança que eu paro
...................................................

acorda
amor melancólico
acorda e chora
extingue do interior
da tosse e do corpo
esses restos
das suas chamas em camas
que nem houveram
e todas essas
lágrimas ardentes
e deixa o coração ruidoso
intenso
continuar
em
paz
...................................................

domingo, 14 de fevereiro de 2016

dos jardins...

.
"e aqui na terra os vaga-lumes imitam as estrelas
que embora, em tamanho não se igualem a elas
(e eles nunca foram realmente estrelas de coração)
suportam um desejo como se fossem uma delas
só que, é claro , eles não podem sustentar seu brilho"

Vaga-lumes no Jardim -
tradução livre do poema de Robert Frost por Julio Carvalho
.
Foto de Rick Barneschi












































histórias de desamor
são mais comuns que as 
histórias de amor
como esses reflexos
inusitados na água
os contrários
se completam
as histórias de desamor
só são entendidas
por aqueles que passaram
por desamores perversos
e perdas
catastróficas
o valor das histórias de amor
é revelar
o amor que faltou
em todas as outras
........................................................

re_feição

não importa a pele 
em que você tenha estado
cada vaso é um caso
diferente
onde nascem todos os tipos
de sentimentos e coisas
onde a casa cresce
e uma janela floresce
de repente para algum sol
ou um sabor escondido
na salada do jantar
você levanta os olhos do prato
fingindo ser surpreendido
mas a poeira não muda de lugar 
e a porta não abre
e nunca entra quem você espera
e a pele descama
              em vermelho
eu gosto de vermelho
sobre a pele
após o jantar
a espera
sangra
................

"Nós somos, eu sou, tu és por covardia ou coragem quem encontra o caminho de volta a esta cena trazendo uma faca, 
uma máquina fotográfica um livro de mitos onde os nossos nomes não aparecem"
Adrienne Rich
................

das armadilhas...

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"este é um poema de amor
por isso nele
não poderá faltar 
a menção 
de alguma 
flor
e por isso digo
rosa
ou lírio 
ou simplesmente
rubro,
rubro
e espero as páginas 
imantarem-se
de vermelho
por isso digo 
febre
e noite
e fumo
para dizer
ansiedade e
desperdício de sêmen e de horas
e cigarros à janela
acesos como estrelas 
com a noite numa ponta
e nós
consumindo-nos
na outra
este é 
definitivamente 
um poema de amor
por isso nele 
devo dizer
casa
e olhos
e neblina
e não devo dizer
que o amor é uma doença 
uma doença do pensamento
uma desordem que põe tudo o mais
em desordem
uma perda que põe tudo
a perder
e porque é 
um poema de amor 
sob pena de ser devolvido
como uma carta sem destinatário 
(e todos sabem que não se deve
brincar com os correios)
este poema deve dirigir-se
a alguém
porque a alguém o amor deve ferir
com sua pata negra
e então 
à falta de outro
este poema
eu o dedico
(mas não tema,
o tempo
também nisso
porá termo)
a você"

Poema de Amor - Ana Martins Marques




..........................................................

estou muito tenso
mas em timbre 
controlado
..........................................................

gosto de gente assim:
que veste 
as palavras
de poesia 
enquanto
morre
de amor
..........................................................

lançamentos

cuspi o desejo
feito
parede 
para conseguir
algo 
concreto

cuspi o desejo
feito
roupa
para conseguir
me ver
nu

cuspi o desejo
feito
louco
para conseguir 
me ver
são
..........................................................

espero que meu próximo 
amor
não me queime
os lábios 
como faz
um
cigarro
até o fim
..........................................................

porquê 
eu não tenho 
o direito
de me apaixonar 
direito?
..........................................................

a vingança do amor urbano

entre os automóveis 
e o asfalto
armarei pra ti
um atropelamento
tão pior
quanto a paixão 
que você 
despertou 
em 
mim
..........................................................

braços separados do corpo
mãos separadas dos braços 
dedos separados das mãos 
será por isso
a necessidade
dos
abraços?
..........................................................

o amor é uma arapuca
onde a gente cai
feito passarinho
cantando
..........................................................

quem voa
de verdade
doa
plumas e penas
e não 
teme
perder
as 
asas
..........................................................

doce ilusão 
o poeta
que faz poesia
como quem
usa mapa e lanterna
para entender
a
palavra
..........................................................

porquê azar
se um espelho
quebra
se em cada pedaço 
você se vê?
..........................................................

quando eu amo
faço do seu banho
minha trilha
sonora
..........................................................

poema rimado por dentro

todo poeta
repete
diariamente
os gestos 
do primeiro homem
que se sentou
numa tarde quente
decifrando palavras
olhando por fora
a palavra
por dentro
todo poeta olha
sem discutir evidências 
de que a palavra
entre o fora e o dentro
ainda é um ser
com seu próprio 
movimento
a palavra atenta
comove o poeta
que inventa
moda de abrir
a torneira 
deixando
o
mar
entrar
e a palavra no mar
vira onda
e deixa a poesia
aumentar
a palavra sustenta 
feito areia
e o sal faz passar
dando gosto ao vento
onde a poesia pode
atravessar
assim em qualquer lugar
o poeta vira mar
depende da poesia
do tempo
e do modo
de 
olhar
..........................................................

margarida
ali
floriu
sem
perceber
o vento
o coração 
ali
sentiu
sem
nenhum
movimento
..........................................................

inventar
um trem de pouso
para pensamento
de poeta
..........................................................

se o amor fosse hoje
seria tudo pra ontem
..........................................................

a pressa é inimiga da correção
..........................................................

na arte das armadilhas
foi onde eu cai
com o coração 
na mão 
eu me perdi
senti a boca
seca sem nenhum beijo
e o pulmão reclamou
pois sem você 
eu nem respirava
e o ar me faltou
eu tive poucos sonhos
e você quase arrancou
eu não me olhava no espelho 
de medo 
de ver o que sobrou
eu pensava durante todo
o tempo
em coisas que você dizia
e quanto eu mais pensava
mais o amor confundia
eu me perdi
nem percebi
a peça que me faltou
eu me perdi
nem percebi
a peça que você levou
..........................................................



























"porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?"

Alex Simões
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sim queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou uma caixa de surpresas

Adaptado de Alex Simões
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vestia uma alma 
espécie
cobalto-amargura
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eu viajo sem usar nada
porque já sou nuvem pronta
e tem gente muito rara
que me faz chover

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vermelho

gente que pensa
que sou fogo
quando já sou
fogueira
pronta
qualquer
fogo
ligeiro
me acende
por dentro
o que me prende
é o calor
sustentado
por lágrimas
quentes
..........................................................



CCSP em Vermelho