quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

das aberturas...

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"poema de pedra
não brota"

Julio Carvalho
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*Poemas de Fernando Schubach & Julio Carvalho

mesmo quando o fácil é pouco
resultado das longas horas 
sem sentir o gosto 
o gozo das coisas que ficam atravessadas 
nessas vias de fácil acesso 
eu aceso 
na facilidade de ser nu o tempo todo
o mesmo tempo que me prende 
é o tempo que a meteorologia da palavra signo 
insiste em me tornar nu
e voltar a ser menino
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a vida ensina a facilidade de ter a droga 
de consumir droga 
tudo hoje uma droga 
e a facilidade de distinguir  cada dose
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a nossa esclerose múltipla 
sem escolha é foda 
porque dói
dentro da alma
sem muitos tratamentos 
picada de abelha 
que faz mel na sua carne 
para ver até a onde a dor desinflama 
metáfora em forma de lua 
um acordo atravessado 
nesse som que se repete
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se poema fosse cu 
você me comia toda hora 
se fosse buceta 
vários caras lamberiam 
(e obviamente nunca saberiam) 
mas se poema fosse pica 
era um orgasmo 
mas sem rima
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tem gente que diz que pão é de deus 
mas o diabo veio antes
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vai tomar em algum orificio 
pode ser o do umbigo 
ou chama um pau amigo 
em dia de domingo
todo sexo tem validade
só não vale o vencido
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me edita 
me arruma
me ama 
me ajuda
me ilude
me perdoa 
me entenda 
me preencha
de qualquer amor
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dos despreparos...

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"nada de nada
pensamos em pleno movimento
pensar enquanto se corre
pensar para poder correr
"uma ideia que se mantém 
mais de cinco minutos
já é uma ideia fixa.
exceto na ciência."
diagnóstico:
não estamos preparados
para saber tudo logo no início,
por isso mesmo continuamos 
e fazemos perguntas.
"se avanças 
deixas para trás 
a hipótese de recuar."
como um maluco 
que anda ao redor 
de uma circunferência:
ao mesmo tempo que avança,
recua.
está avançando 
para o ponto de partida,
está recuando para o destino
- eis-nos, enquanto seres vivos:
coisas desnorteadas,
embriagadas,
tentadas pelo caminho
e não pela parte alta do mundo
(olhamos em frente e por isso
ficamos com essa cegueira parcial)
estamos loucos porque temos tempo:
as funções e as necessidades guardaram
uns minutos entre uma exigência
e a exigência seguinte.
ficamos loucos com o tédio,
mas também 
por um excesso de perguntas."
Adaptado de Matteo Perdeu o Emprego 
de Gonçalo M. Tavares
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um calor muito grande
um calor muito grande
um suor
obtuso
escorrendo
liso
feito 
musgo
seus múltiplos
longos
corredores de sal
úmido
cobras que não
refrescam
não há sobra de dúvidas
no calor
nem a sombra
se salva
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vivo em minha pele opaca diariamente
talvez por isso
essa alma
transparente
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fato frágil:
distinguir o certo do errado
o nu e o cru
o mágico
tornou-se mais que necessário
discorrer
sobre a fragilidade do bom humor
ser menos
ser mais ágil
ser demasiadamente 
fácil
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errar sempre que tiverem chance
ou senão
tentem 
o quase

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bosque
busque
pulse possa
poste
porte
de alma

Julio Carvalho e Raffab Raffab
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

dos vermelhos...

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"tem muita gente 
que ao invés de reclamar da falta de chuva 
deveria procurar a humildade no ar."
Julio Carvalho
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vermelho & vermelho - Julio Carvalho




águas e olhos e olhos e águas

eu quero um pé d'água
eu quero uma mão de chuva
e olhos sem o choro
do granizo
o olho errado
não é o vesgo
ou o atrapalhado
o olho errado
é o encarcerado
(leitores somos míopes)
o bom poema deixa os olhos
atrapalhados
mareados de água
e algumas vezes
para uma guia cega 
uma águia viva
pois
aos olhos de um poema
tudo é oculto
tudo é colírio
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

das galerias...

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"montão de não
vez em quando um sim"
Eduardo Santinon
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o corpo e a tinta

suave como o perigo
atravessaste a tinta
numa dança descontrolada
como uma tatuagem abandonada
no ar
fumaça sem prumo
nenhuma chaminé
no desapego da pele
a dança remota
em pedaços bem pequenos
os gestos formam 
um quadro no espaço
sua galeria própria
livre
fora do corpo
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

das improvisações...

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"Signo ambiguo, el poema. 
Si por su conexión con la infancia y lo maravilloso, 
se aleja del realismo y activa la imaginación (...) 
A esto lo llamamos ´Theatrum Mundi´. 
Un proscenio donde lo real poético cuestiona 
a la muñeca humana (la marioneta que se ignora) 
y hace de la obra una fabulosa crisis de conciencia". 
(Anamorfosis del sueño, María Negroni)
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perdeu a cabeça
de vento:
virou furacão


improvisações do alto de uma torre

"como el alma que canta por sí misma
en su limpia casa de cristal"
Hermann Broch

melancolia cinza
duelo à deriva
vindo de uma alma
que canta sozinha
em sua casa
limpíssima
de cristal
tinha que decidir
entre o céu
e o estrelado
entre o cristal
e essas estrelas
onde começam
os desejos
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e eu aqui 
tentando entender 
a essência dos surtos
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dos apanhamentos...

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"o que quer dizer tudo isso? nada. 
as coisas não querem dizer nada. 
as coisas não querem. e, quase sempre, mal dizem. 
mas, no caminho, tem uns sorvetes."
Noemi Jaffe
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amanhecendo os olhos
o traçado do rosto sumiu
algumas alianças 
caíram dos dedos
os pés de remanso lírio
escureceram
havia virado árvore
era tronco e galhos
folhas nos cabelos
uma copa súbita 
subia tamanha grandeza aos céus
e suas raízes imensas
pendiam cerzidas
na terra
era firme como um lastro
nunca mais dormiu.
e era verão...

(como humana
não servia,
mas como árvore
sobreviveria)
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habito o monge

com o passar do tempo, o tédio da vida adulta mostra que acabou a infância. 
o encantamento, antes acessível, torna-se cada vez mais raro.
os jovens talvez usem drogas tentando reproduzir de forma falha esse paraíso perdido, 
simulando o deslumbramento infantil.
faço poesia por isso. para ter de volta alguns encantamentos. sem uso de drogas. só palavras. 
procuro reproduzir paraísos e infernos. mesmo o que não me encanta me deslumbra. 
sofro alguns dias em que faltam sensações. 
mesmo agora ouço violinos. daqueles desafinados. e sou impelido a realizar. motivado pelo encanto.
não sei se seria a negação do duro cotidiano. cansei das mortes vistas em vídeos e promoções desencantadas. na poesia fica esquartejada a falta. a palavra nunca falha. 
talvez sejam esses os meus sonhos acordados. esses sonhos que invadem nosso cotidiano 
para nos dizer que algo importante ficou pelo caminho. 
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adão e eva
nunca criaram
raízes
deve ser por isso 
o pecado
ser tão original
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"quanto mais você demora
mais me assalta
depois
não sei se quero a pessoa que chega
ou que me
falta"

adaptado de Maria Rita Kehl: Amor e Dor
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nesse calor 
não dá pra rimar amor e dor:
todo esse suor
não deixa
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por culpa da memória
e de um violino
fiz um poema
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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

das cadeiras...

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"quando a mentira se justifica?
quando, em vez de ferir, alivia?
cada existência forma sua própria verdade
mas sempre em correspondência 
com a verdade do outro
e cada mentira pode ser sua própria verdade
caso a proteja
a suprema veracidade do outro
que é a sua vida"
Carlos Fuentes - A Cadeira da Águia
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quero que você entenda
quero que saiba
quero que se questione 
até que ponto a separação 
pode mais que a presença?
porque a ausência 
nos inflama de paixão 
até que enlouqueçamos?
e, pelo contrário,
até que ponto
as conveniências sociais nos obrigam
a abandonar a luz do amor 
e perder-nos na noite 
na insônia e no vício?
e. finalmente, 
porque o ponto de equilíbrio 
destes extremos da paixão
- a fome da presença, o vício do abandono -
acaba encontrando 
uma maligna conformação 
no esquecimento?
ou pior
na indiferença?
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de qualquer forma
alguma coisa em mim
talvez minha nostalgia do impossível
me impulsionou desde jovem ao risco
mas  também a agudeza mental
à ambição a ser mais do que eu era
como se meu sangue 
clamasse por uma herança
escondida
inevitável
sonhada como algo estranhamente luminoso
apenas  um vislumbre
acontece
eu me formei na miséria de muitas perdas
morando em vários lugares sem distinção
na disciplina sequestrada à necessidade de sobreviver
na íntima convicção 
de que um dia não apenas seria alguém
mas de que já era algo:
um poeta
um menino despojado de sua linguagem
algo
filho de letras dispostas ao acaso
filho do acaso
(cada acaso é um caso)
filho de algo
fidalgo

Textos adaptados do livro de Carlos Fuentes - A Cadeira de Águia
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