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"poema de pedra
não brota"
Julio Carvalho
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*Poemas de Fernando Schubach & Julio Carvalho
mesmo quando o fácil é pouco
resultado das longas horas
sem sentir o gosto
o gozo das coisas que ficam atravessadas
nessas vias de fácil acesso
eu aceso
na facilidade de ser nu o tempo todo
o mesmo tempo que me prende
é o tempo que a meteorologia da palavra signo
insiste em me tornar nu
e voltar a ser menino
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a vida ensina a facilidade de ter a droga
de consumir droga
tudo hoje uma droga
e a facilidade de distinguir cada dose
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a nossa esclerose múltipla
sem escolha é foda
porque dói
dentro da alma
sem muitos tratamentos
picada de abelha
que faz mel na sua carne
para ver até a onde a dor desinflama
metáfora em forma de lua
um acordo atravessado
nesse som que se repete
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se poema fosse cu
você me comia toda hora
se fosse buceta
vários caras lamberiam
(e obviamente nunca saberiam)
mas se poema fosse pica
era um orgasmo
mas sem rima
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tem gente que diz que pão é de deus
mas o diabo veio antes
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vai tomar em algum orificio
pode ser o do umbigo
ou chama um pau amigo
em dia de domingo
todo sexo tem validade
só não vale o vencido
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me edita
me arruma
me ama
me ajuda
me ilude
me perdoa
me entenda
me preencha
de qualquer amor
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"nada de nada
pensamos em pleno movimento
pensar enquanto se corre
pensar para poder correr
"uma ideia que se mantém
mais de cinco minutos
já é uma ideia fixa.
exceto na ciência."
diagnóstico:
não estamos preparados
para saber tudo logo no início,
por isso mesmo continuamos
e fazemos perguntas.
"se avanças
deixas para trás
a hipótese de recuar."
como um maluco
que anda ao redor
de uma circunferência:
ao mesmo tempo que avança,
recua.
está avançando
para o ponto de partida,
está recuando para o destino
- eis-nos, enquanto seres vivos:
coisas desnorteadas,
embriagadas,
tentadas pelo caminho
e não pela parte alta do mundo
(olhamos em frente e por isso
ficamos com essa cegueira parcial)
estamos loucos porque temos tempo:
as funções e as necessidades guardaram
uns minutos entre uma exigência
e a exigência seguinte.
ficamos loucos com o tédio,
mas também
por um excesso de perguntas."
Adaptado de Matteo Perdeu o Emprego
de Gonçalo M. Tavares
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um calor muito grande
um calor muito grande
um suor
obtuso
escorrendo
liso
feito
musgo
seus múltiplos
longos
corredores de sal
úmido
cobras que não
refrescam
não há sobra de dúvidas
no calor
nem a sombra
se salva
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vivo em minha pele opaca diariamente
talvez por isso
essa alma
transparente
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fato frágil:
distinguir o certo do errado
o nu e o cru
o mágico
tornou-se mais que necessário
discorrer
sobre a fragilidade do bom humor
ser menos
ser mais ágil
ser demasiadamente
fácil
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errar sempre que tiverem chance
ou senão
tentem
o quase
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bosque
busque
pulse possa
poste
porte
de alma
Julio Carvalho e Raffab Raffab
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"tem muita gente
que ao invés de reclamar da falta de chuva
deveria procurar a humildade no ar."
Julio Carvalho
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vermelho & vermelho - Julio Carvalho
águas e olhos e olhos e águas
eu quero um pé d'água
eu quero uma mão de chuva
e olhos sem o choro
do granizo
o olho errado
não é o vesgo
ou o atrapalhado
o olho errado
é o encarcerado
(leitores somos míopes)
o bom poema deixa os olhos
atrapalhados
mareados de água
e algumas vezes
para uma guia cega
uma águia viva
pois
aos olhos de um poema
tudo é oculto
tudo é colírio
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"montão de não
vez em quando um sim"
Eduardo Santinon
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o corpo e a tinta
suave como o perigo
atravessaste a tinta
numa dança descontrolada
como uma tatuagem abandonada
no ar
fumaça sem prumo
nenhuma chaminé
no desapego da pele
a dança remota
em pedaços bem pequenos
os gestos formam
um quadro no espaço
sua galeria própria
livre
fora do corpo
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"Signo ambiguo, el poema.
Si por su conexión con la infancia y lo maravilloso,
se aleja del realismo y activa la imaginación (...)
A esto lo llamamos ´Theatrum Mundi´.
Un proscenio donde lo real poético cuestiona
a la muñeca humana (la marioneta que se ignora)
y hace de la obra una fabulosa crisis de conciencia".
(Anamorfosis del sueño, María Negroni)
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perdeu a cabeça
de vento:
virou furacão
improvisações do alto de uma torre
"como el alma que canta por sí misma
en su limpia casa de cristal"
Hermann Broch
melancolia cinza
duelo à deriva
vindo de uma alma
que canta sozinha
em sua casa
limpíssima
de cristal
tinha que decidir
entre o céu
e o estrelado
entre o cristal
e essas estrelas
onde começam
os desejos
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e eu aqui
tentando entender
a essência dos surtos
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"o que quer dizer tudo isso? nada.
as coisas não querem dizer nada.
as coisas não querem. e, quase sempre, mal dizem.
mas, no caminho, tem uns sorvetes."
Noemi Jaffe
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amanhecendo os olhos
o traçado do rosto sumiu
algumas alianças
caíram dos dedos
os pés de remanso lírio
escureceram
havia virado árvore
era tronco e galhos
folhas nos cabelos
uma copa súbita
subia tamanha grandeza aos céus
e suas raízes imensas
pendiam cerzidas
na terra
era firme como um lastro
nunca mais dormiu.
e era verão...
(como humana
não servia,
mas como árvore
sobreviveria)
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habito o monge
com o passar do tempo, o tédio da vida adulta mostra que acabou a infância.
o encantamento, antes acessível, torna-se cada vez mais raro.
os jovens talvez usem drogas tentando reproduzir de forma falha esse paraíso perdido,
simulando o deslumbramento infantil.
faço poesia por isso. para ter de volta alguns encantamentos. sem uso de drogas. só palavras.
procuro reproduzir paraísos e infernos. mesmo o que não me encanta me deslumbra.
sofro alguns dias em que faltam sensações.
mesmo agora ouço violinos. daqueles desafinados. e sou impelido a realizar. motivado pelo encanto.
não sei se seria a negação do duro cotidiano. cansei das mortes vistas em vídeos e promoções desencantadas. na poesia fica esquartejada a falta. a palavra nunca falha.
talvez sejam esses os meus sonhos acordados. esses sonhos que invadem nosso cotidiano
para nos dizer que algo importante ficou pelo caminho.
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adão e eva
nunca criaram
raízes
deve ser por isso
o pecado
ser tão original
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"quanto mais você demora
mais me assalta
depois
não sei se quero a pessoa que chega
ou que me
falta"
adaptado de Maria Rita Kehl: Amor e Dor
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nesse calor
não dá pra rimar amor e dor:
todo esse suor
não deixa
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por culpa da memória
e de um violino
fiz um poema
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"quando a mentira se justifica?
quando, em vez de ferir, alivia?
cada existência forma sua própria verdade
mas sempre em correspondência
com a verdade do outro
e cada mentira pode ser sua própria verdade
caso a proteja
a suprema veracidade do outro
que é a sua vida"
Carlos Fuentes - A Cadeira da Águia
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quero que você entenda
quero que saiba
quero que se questione
até que ponto a separação
pode mais que a presença?
porque a ausência
nos inflama de paixão
até que enlouqueçamos?
e, pelo contrário,
até que ponto
as conveniências sociais nos obrigam
a abandonar a luz do amor
e perder-nos na noite
na insônia e no vício?
e. finalmente,
porque o ponto de equilíbrio
destes extremos da paixão
- a fome da presença, o vício do abandono -
acaba encontrando
uma maligna conformação
no esquecimento?
ou pior
na indiferença?
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de qualquer forma
alguma coisa em mim
talvez minha nostalgia do impossível
me impulsionou desde jovem ao risco
mas também a agudeza mental
à ambição a ser mais do que eu era
como se meu sangue
clamasse por uma herança
escondida
inevitável
sonhada como algo estranhamente luminoso
apenas um vislumbre
acontece
eu me formei na miséria de muitas perdas
morando em vários lugares sem distinção
na disciplina sequestrada à necessidade de sobreviver
na íntima convicção
de que um dia não apenas seria alguém
mas de que já era algo:
um poeta
um menino despojado de sua linguagem
algo
filho de letras dispostas ao acaso
filho do acaso
(cada acaso é um caso)
filho de algo
fidalgo
Textos adaptados do livro de Carlos Fuentes - A Cadeira de Águia
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