quinta-feira, 10 de março de 2016

dos familiares...

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"Todo espaço 
em seu nome é livro.
Todo vento 
em seu nome é hino."
Adônis

"sussurrei rente às pedras
e li as estrelas: tomei seus pontos
e apaguei-os.
meu desejo é um mapa
e nele o meu sangue e as entranhas."
Adônis
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Foto de Rick Barneschi































diário 
do corpo
que me consome
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tenho olhos
de oxigênio 
que precisam respirar
para evitar
o medo
de me 
perder
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solstício e solidão 
são palavras 
que combinam
minguante 
a memória para 
e oscila 
entre 
os dias
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meu corpo
é um jardim botânico 
de bactérias 
mas sempre tem 
alguns vírus 
que incomodam
tudo isso convive
como se não soubessem
de mim
mas eu sei
como eles me tratam 
em silêncio 
colaboro
a vida por dentro 
quando incomoda
mata
........................................................

outra crise de pânico 
e meus dentes se fendem
de novo
suor é sinal de alarme 
escuto o coração atrás dos
ouvidos
respiro atento
um susto de morte
invisível 
assim escrevo
para deliciar
a calma 
e espantar 
o medo
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amávamos felizes
mas não sei quem dizia
solidão
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an
coragem 
é
a soma das raízes
arrancadas
da terra
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"ao solitário as rosas
e ao solitário 
o necessário preço vão 
da solidão 
estar só 
se postulo a sombra
é simples
difícil me será 
ao sol de todos
isolar as feridas
fugir ao atrito
o solitário paga o preço 
eu
grito"

Renata Pallottini
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divido o tempo em sustos
um atrás do outro
o desgaste do tempo
tem gente que chama 
de idade
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a arte poética 
dói mais que esculpir
ficamos expostos
e prontos
com as palavras visíveis 
fere e sinaliza
quatro pontos cardeais
centro
cetro
coração 
espírito 
pronto
vagamos entre palavras
saltando
sem redes de proteção
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"ciego huir a la mar"
Antonio Machado

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essa coisa tão grande
que fica entre irmãos 
é uma tristeza tão grande
que afasta
quem dera virasse 
tudo isso 
saudade:


à minha irmã Angélica

vociferando 
vociferando
evita seu coração 
mais carente que o meu

à minha irmã Regina

de opções iguais
e sexos diferentes
o amor diz tudo 
com a mesma linguagem

à minha irmã Rachel

eu ouvia seus gritos 
que por dentro
eram iguais
aos meus

ao meu irmão José

nunca entendi
o seu silêncio 
apesar de termos
o mesmo cheiro
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além da carne
embaixo da pele
o que mais
prende
a vida?
informações 
abruptas ou mansas 
de pessoas
que interferem
nas nossas órbitas?
cada eclipse
incomoda:
os escuros
são os dias
suspensos 
calados
no espaço 
vazio
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pequenas coisas de cabeça 
que a alma não guarda
durante os dias de chuva
invento a nuvem que vem de longe
sem entender
a tempestade
aguardo
o outono
como folha
já exposta
ao chão
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"Não há uma coisa em minha vida que não aconteceu ao extremo - saúde pessoal, situações familiares, econômicas... absurdidade é a palavra chave... 
Tem a ver com contradições e oposições. 
Nas formas que eu uso em meu trabalho as contradições estão certamente lá. 
Eu sempre estava atenta que deveria levar ordem contra caos, pegajoso contra massa, enorme contra pequeno, e eu tentaria achar os opostos mais absurdos ou opostos extremos".

Eva Hesse
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‪#‎dialogos‬

no amor
continuo trouxa
e faz parte 
trouxa até o próximo 
capítulo de sentimento 
ou consentimento 
ou constrangimento 
no amor 
os impulsos
são 
impostos
atrasados
com juras
de correções
panfletárias
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meus raios
que vos
partam
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isso é o que coloca 
em andamento 
meu desejo de escrever
se não encontro nada perturbador não me interessa a poesia
sem o elemento perturbador
não posso armar o poema
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"velocidade é profundidade, 
não é superficialidade."
Samanta Schweblin

Sobre Clarice Lispector:
"Ela sofria com a não-palavra. 
A palavra mais citada não pode estar no texto…
tem que estar na cabeça do leitor!"
Samanta schweblin
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domingo, 6 de março de 2016

dos pássaros...

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"vieram os pássaros
amalgamaram-se as pedras"
Adônis
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um pássaro - porque me lembra o vento



































ouvi hoje
tristemente
que poesia 
são palavras
só palavras
murmurou-se sem tino
sem música 
o tal:
eu
apago
um coração 
a poesia
não
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minhas mãos 
estiveram por ali
tocando um corpo
que não era um corpo
era imagem 
um negativo
de mármore construído 
dentro de mim 
e um entendimento
de palavras sendo só palavras
destituindo a poesia
da sua causa
o corpo era carne
mas meu mármore 
estancado
não se partiu
minha poesia
cresce
enquanto as palavras
se apagavam
num corpo
inerte
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pensando no dia
durante o que à noite houve
lado a lado pensávamos coisas puras 
enquanto ao longo dessas estradas
as mãos se desfaziam
entre flores obscuras 
o jardim de um quarto 
azul
iluminado
era puro 
blues
inacabado
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o fim
é essa chuva lá fora
e um instante
inacabado
alguém encostado na porta
de saída
uma estamparia
num colete sem cheiro algum
o vento a voar com pés de erva
sobre nenhuma nuvem
o fim
são meus desejos manchados
são rosas
que as feridas me criaram
então caminho
feito essa chuva
com uma mão no ar
e a outra vazia
com um
pássaro
ausente
distante
de declarações
entendimentos
e poesia
o fim
é um ocaso
uma chuva
em fim de tarde
nenhum pássaro voa
com as asas
encharcadas
o fim
é o chão
sem alçar
voo
.............


estamparia no seu colete a minha dor "made in china" se fosse verdade

























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dos aparecimentos...

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"gosto do bonito, não do belo; 
do difícil, não do complicado; 
do simples, não do fácil; 
do verdadeiro, não do real; 
da mentira, não do falso; 
do longe, não do distante; 
do perto, não do próximo; 
da procura, não da busca; 
da paciência, não da espera; 
de estar sozinha, não da solidão; 
da tolice, não da burrice; 
da inteligência, não da esperteza. 
mas nada disso é tão categórico assim"

Noemi Jaffe
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se não vier

o terno e perigoso
rosto do amor
pode ser que apareça essa noite
depois de um dia muito comprido
talvez venha como um arqueiro
com seu arco
ou ainda um músico
com sua harpa
não me lembro mais
nada mais sei
tudo o que sei
é que se não vier ferirá
talvez com uma flecha
talvez com uma canção
tudo o que sei
é que vai me ferir
aqui no coração
e para sempre
ardente muito ardente
será ferida de amor
e falta
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os passos
escavados
pelo pendulo
pelo tempo
pela sola do sapato
pelos pneus do carros
tornaram
possível
a criação
da nossa
pequena
relação
casual
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vieram as cidades
amalgamaram-se as pedras 
andar pelas ruas
em pequenos frascos de vícios 
depois de cada carro
alguém tem que fazer faxina 
limpar os bloqueios
da civilização 
tudo acontece silencioso
até o mundo acordar
da escuridão da noite
à luz da manhã
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‪#‎dialogos‬

a paixão 
é um tempo que
nunca causa 
abandono
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‪#‎dialogos‬

presente a gente dá
se não deu 
é porque não é presente
é passado
e nem futuro você terá com ele
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estresse máximo 
controle estático 
sob medicação 
um mundo apático
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do sangue
ergui cidades mudas
e esfinges sem resposta 
não obtive
ruas 
as casas ruíram
em desamparo
e as perguntas
se foram
com as chuvas
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inverto o corpo
invento o corpo
invento a onda
inverto o mar
incerto
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tantos fazem 
tantas coisas 
e eu tentando
só 
me refazer
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todo presente
é um vínculo 
a ser consertado
toda separação 
tem um ponto
onde a entrega
é necessária
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inseguro 
morreu
com
o
tédio 
nas
mãos
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terça-feira, 1 de março de 2016

das passagens...

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"estou com raiva. 
devemos ter raiva. 
ao longo da história, 
muitas mudanças positivas 
só aconteceram por conta da raiva."

Chimamanda
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um sinal
minha saudade não permite
isso
minha saúde 
não permite
a falta
adoeço
assim
que você 
for
embora
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o beijo 
é a parte visível 
de um sentimento
invisível
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poeta
é quem vive
em amar
contínuo

poeta
é quem vive
em um mar
de signos

poeta 
é quem diz
que amar e mar
são coisas
capazes de rimar
e sabe onde vão 
parar
cada 
nova 
onda

poeta
é uma praia
amar
de água 
doce
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“Não se pode renegar o que é seu. 
Quando se vai longe, há sempre o retorno, 
o reconhecimento, a vingança, talvez a reconciliação.
Sempre existe o retorno. 
E a ferida o levará até ele. 
É uma trilha de sangue.”

{Jeanette Winterson, em 'Por que ser feliz quando se pode ser normal?}
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popular 
é um olhar
de fora
por dentro
é particular
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juntei o tempo
ao olho
os cílios se fecharam
passou por mim uma fagulha
que confundi com
estrela cadente
não me apressei ao
pedido
perdido nunca sei bem o que vejo
dentro dos olhos 
os cílios enroscavam
sem perceber 
que havia passado
um desejo
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o plural são grandes números 
e eu nunca fui bom em matemática 
a palavra singular é única 
sem "esses".
um resumo de si mesma.
no mínimo 
e na matemática 
é mais fácil lidar
com o singular
de um
do que com o plural 
de dois
ou mais
pessoas são essas equações 
de resultados
imprevisíveis
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distinguir o sonho
do despertar
acertar as horas sem 
entender
nenhum amor à 
primeira vista
ou à beira mar
espero que a paixão 
súbita me una
e que seja mais
interessante
que a incerteza
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você é minimal
enquanto sou house
você é flash-back
enquanto fui clubber
você não dança 
não me alcança 
porque minhas pistas
tem um sinal:
"mantenha distância"
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meu mar
meu oceano
veio de águas 
passadas à limpo
e de criaturas 
estranhas e cavalos 
marinhos sem par
de seus cavaleiros
de peixes conturbados
tubarões-martelos
desterrados
debaixo de tanta
lágrima 
em beira de praia 
enfrentando
mergulhadores
atrás de tesouros 
nus
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são os desdiálogos
diálogos abortados
desditos por não acreditos
o não dito pelo não dito
os desmandamentos
malditos
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das conversações...

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"As palavras são mais libertadoras. 
Posso continuar a fazer malabarismos com as palavras em qualquer tempo. 
O corpo, coitado, depois de um certo tempo, de uma certa idade, 
já não responde com a devida presteza e eficiência aos nossos apelos. 
As palavras, porém, vão se enriquecendo, 
ganhando novos significados com o passar do tempo."

José Wilker
.

Foto de @hugo_mulatiere
































#‎dialogos‬

um

não deixe esse cara fazer de você 
e de todo conhecimento que podes oferecer pra ele, 
uma das experiências pela qual ele quer passar...

dois

— por que você nunca foi atrás?
— sei lá… 
costumam falar que quem ama procura. 
ninguém me procurou, 
então achei melhor me afastar.
— você amava?
— sim.
— então por que não foi atrás?

três

ele : por que você se afastou?
ela : por eu percebi que perto ou longe eu não fazia diferença
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#‎dialogos‬

- gente que morre de saudade
mas não fala
e se afoga em lágrimas 
porque debaixo d'água não se fala
mas meu signo é de água
e compreendo mesmo submerso
- meu signo 
por outras chuvas
é de fogo 
mas nem assim apaga
mesmo debaixo
d'água
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‪#‎dialogos‬

melhor um trem na mão 
que um trilho agarrado no chão
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‪#‎dialogos‬

- eu só chovo quando venta
- eu só vento quando choro
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Herberto Helder 


em carta a Gastão Cruz, 1994






















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#dialogos 

"Um homem chegou e disse:
— A mim interessa sobretudo o porquê das coisas.
Por que a cobra?
Mas outro respondeu:
— A mim ainda mais interessa o para quê.
Para que o mar?"


 Odylo Costa Filho. "Diálogo"
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