sábado, 23 de maio de 2015

dos instantâneos...

.
"debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.
debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita."

O Duplo - Affonso Romano de Sant'Anna
.






se eu tenho algum amor
é para colocá-lo em pasta de dente
e dentro de um tubo
e ser esmagado e espremido
até acabar
no minimo
no fundo da escova
um resto de espuma
se tenho algum amor
é pra acabar escovado
e entre os dentes
........................................................................................................

eu não perco a fé
de fato
foi ela que se perdeu
vezes em conta
por aí
em algum
porta retrato

mal falado
........................................................................................................

avesso aos domingos
dias livres e feriados
isso que sobra
isso que nós temos
temo
tempo
isolamento
e é esse agora
ao mesmo tempo
que me assusta e me atrai
onde eu sou apenas ferramenta
que alimenta a cara de pau das horas
que passam
sem meu consentimento
até aí então
eu não sabia que o tempo
tinha outros dois nomes
como sentimento
ou saudade
e que passa livremente
como um instantâneo
das coisas apanhadas
sem pedir licença:

dias
sem hora de chegada

dias
sem hora de partida
.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

das desintoxicações...

.
“em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.
raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.
eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada."

Poema de Desintoxicação
João Cabral de Melo Neto
.








































o funeral dos desejos:
o preço de uma escolha
envolve sempre
algum tipo de morte?
..............................................................

não
esperar
nunca de nada
é nunca ter
...
infinito.ponto.infinito
maior que
reticências
ponto.com
..............................................................

mar?
é coisa de onde
não tem chuva
e muita água
misturada
doce e salgada
o gosto
não se sabe
se perde
na maré
..............................................................

exatamente por isso
um pouco de cais
e de caos
um pouco de mar
enquanto
tempestade
..............................................................

ha!
essa casa cheia de meus
sentimentos
quem dera uma fresta
aberta
escapando
medos
..............................................................

cada eu por si
que corre pelo meio de tudo
..............................................................

trago caos
travo
desconstruo
desvios
arranco as palavras
escondidas entre as dobras
poesia de manga curta
absolutamente
descosturada
..............................................................

re
compondo
me
..............................................................

"Morrer será
acender uma lâmpada
na casa desconhecida"

Arnaldo Calveyra
- Canção do Marinheiro Imigrante
.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

dos pescados...

.
"el poeta 
es un pescador,
no de peces, sino de pescados vivos;
entendámonos: de peces que puedan vivir 
después de pescados."

Antonio Machado 
Habla Juan de Mairena a sus alumnos
.








































drogentraumbilder: 
produzir arte 
sob efeito de drogas
..............................................................

a poesia 
é quando 
a palavra sai 
pra dar umas voltas 
e se perde
..............................................................

não começaria
um livro pelo título 
começaria pelo fim
mudo
e
em silêncio 
dividiria em quadrados
os barulhos do mundo
..............................................................

não se memoriza um rosto
olhando uma foto
o rosto excede 
a expressão:
foto
mesmo quando cede
sua sede do rio
sua sede de água 
o rosto incide 
a impressão:
foto
transbordamento 
em alto mar
vive
..............................................................

cinema & poesia:
coisas feitas de
películas
..............................................................

a fé 
é uma 
constatação 
de que deus
insiste
..............................................................

a cor é um favor
que tenho que pedir 
aos outros
..............................................................

não enxergo
mais como antes
agora enxergo
com a palavra:
meu olho é eloquente
..............................................................

queria um coração 
anti-furto
e com GPS
integrado
..............................................................

uma vida 
a procurar
a regra e a exceção 
dos jogos
..............................................................

meu óleo 
mineral 
escorre de Minas
mas eu nego
o sangue
de onde fui
desertado
..............................................................

eu não vejo
então deixa 
que eu 
ovo
e choco
um
grito
..............................................................

meu sonho:
um tabuleiro de xadrez
com peças de damas
sempre vivas
sem ganhar ou perder
sem xeque
mate
..............................................................

meu coração 
eletrocardioenigma
..............................................................

a onda vem assim
destruindo o casco 
do mar
que responde
profundo
..............................................................

odeio todos os poemas
e coisas 
que não me dizem
mágoa
..............................................................

não tenho nada com isso
ou a 
quilo
perco o peso de tudo
e leve
não pago o preço
..............................................................

a lógica da pessoa
é colocar tudo de si
dentro de uma garrafa
e arrolhar
jogar no mar
mais distante 
e esperar alguma
ilha
a mais longe possível 
e abrir a garrafa
ler a mensagem
e sem entender nada
descobrir
poesia
retiro de mim
significados
as mínimas etiquetas
as marcas
famosas 
e as palavras infames 
desvio dos erros 
como se fossem
reticências 
aumento
a busca por ausências 
aqui onde me esqueço 
significo
..............................................................

sou pedra dos que não comem
sou pedra que jejua
sou parte das rochas
famintas
como parte das coisas
sem saber o gosto 
a título de experiência 
devoro
vida
..............................................................

eu não sei de nada
nunca saberei nada
e a partir de mim
refaço 
todos os poemas
do mundo
..............................................................

na plumagem dos dias
realço
voo

terça-feira, 19 de maio de 2015

das gentes...

.
"tem gente morando em mim e não sabe
tem gente morando em mim e não quer
tem tanta gente morando em mim...
gente que permiti ficar
gente que ficou só pra passear
gente que nessa história nunca se foi
gente que quer tomar conta do lugar
gente que até bandeira em mim cravou
tem gente morando em mim com vontade
e gente silenciosa que se doa em amor
mas também tem gente que não sabe o que quer
se mora, se visita, se some ou se assume
nessa morada, estadia, nessas paragens
onde barco, canoa, nada nada perde o rumo"

Aqui tem gente - Márcia Maracajá
.

.



método poético 
de descontrole 
de qualidade I

aceite uma casa sem chão 
lugar onde reside o tempo
aceite uma abertura 
onde residam homens
e jardins
aceite uma parede
sua
sem tintas
crua
aceite
sem dificuldade
qualquer pele
nua
.......................................................................................

método poético 
de descontrole 
de qualidade II

ouvir as coisas pelas pedras
sair das obviedades puras
tentar pelas flores 
ver um signo
num som
tosse 
espirro  
secreção sem nome definido:
a cor
amarela
.......................................................................................

busco
um lugar
inocente
.......................................................................................

onde o que reside no tempo
residem os dias como pessoas
uma semana
alguém
um alguém
o tempo
.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

das linhas...

.
"[...] ainda que muito esteja perdido, muito nos resta; 
e ainda que perdida a força dos velhos dias que movia céus e terras; 
somos o que somos; uma coragem única nos corações heróicos, 
débeis pelo tempo e pelo destino, 
mas persistentes em lutar, achar, buscar e jamais render-se."

Alfred Tennyson
.
A Linha Sem Título - Fernando Schubach



































exaustão de perdas
não tem mais nada pra segurar
está pra arrebentar
as perdas só enrolam a gente
e o que fica?
uma fina ironia
pra suportar

Fernando Schubach e Julio Carvalho

...............................................................................................


sinto que minha vida
está presa apenas por um fio
mas não acredito em vidas inabaláveis
do tipo que se julgam 
com o poder de serem eternas
são muito teatrais e superficiais
o fio que prende a vida deve ser de puro aço
portanto resistente e ao mesmo tempo flexível
vida sem flexibilidade
vida sem dúvida
pode acabar em suicídio

adaptado de "Incidente em Antares" - Érico Veríssimo
.

domingo, 10 de maio de 2015

da gravidez...

.
"há um instante
o tido-para-sempre
se afasta
o olfato não o restitui
torna-se pedra
desconhece-se a trama
foge o timbre
some a sombra
não se sabe mais narrá-lo"

PEDROSA, Vera. "perda". 
In:_____. De onde voltamos o rio desce. 
Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2011.
.

.

porque impedem
essa minha leveza
porque me impedem de flutuar
porque me impedem de me afogar 
quando quero
porque seguram minhas mãos
tornando inacessível a pele
porque tanto barulho
porque não me erguem?
porque me seguram no chão?
porque essa falta de ar?
porque essa falta de lugar
e excesso de lugar nenhum?
porque tanto óbvio
porque faltam diferenças
excesso de indiferenças
aos montes?
desde que nasceram os deuses
tudo sempre igual
porque a diferença
não pode ser natural?
...........................................................................

cansado
pelo motivo
de ter sempre
que
ter
cuidado
com
tudo
...........................................................................

herança

minha mãe 
não tinha
estômago 
eu não tenho
olhos
...........................................................................

não brinque
com meu fogo
você 
vai
se
queimar
...........................................................................

É de bom tom ter saudades de longe
porque saudade quando tá perto morre. 
— com Piu Gibson.
...........................................................................

A saudade é a coisa mais presente numa ausência. 
— com Piu Gibson.
...........................................................................

ando
quando 
mando

grávido
de estados
interessantes

entretanto
aborto
.

domingo, 3 de maio de 2015

das marés...




.
"não tem vergonha essa onda
que bate na pedra
e some?"
Julio Carvalho










































corre no ritmo
do meu sangue
oceano
inoxidável
metal
em ondas
de aço
o som nos ouvidos
do mar 
acerto
a onda tem a estupidez da praia
onde se arrebenta
e some
sem dar satisfação
queria ser onda
onde me arrebentar
sem resposta
um metal
na areia
virar espuma
mais 
nada
.