sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

das profundidades...

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"Coisas maiores querias tu também, mas o amor
A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,
Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,
Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,
Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por
                                                                                   [tudo,     
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira."

Curso da Vida - Lebenslauf





intro

tenho andado
por alguns desertos
sem entender
o vazio 
de alguns oásis:
talvez sejam
esses dias
de calor
intenso
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deep water

a água atravessando os meus pulsos rasos
abrindo fendas
num mergulho
de risco
sempre a beira de uma plataforma
pronto para um salto
um maior que outro
e o medo como presença
água
e movimento
não sei se me afogo
ou nado
depois do fundo
difícil se acostumar 
com o raso
não vivo
em superfícies
mesmo que o fundo
seja um risco
um mergulho
é o medo
espalhando
coragem
para todos os lados
é a dispersão 
do inútil
o fundo
é um aprendizado
o alívio de quem respira
depois de cada salto
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

das metas...

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"só se meta
fora
onde o seu nariz
for
apaixonado:
se é com paixão 
a meta já se dá conta"
Julio Carvalho
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ani_versos
para Fernando Schubach

há uma direção
agora
barcos se reúnem
os sons dos dias
configuram-se
de onde voltamos
o anos descem
entre rochas
presos em horas
escapa entre falhas
detém-se em minutos
desce entre lírios
alguns anos o escurecem
outros
poeira de ouro
em suas praias
desenhadas
perturbam-lhe o contorno
algum 
remo torto
quanto ao moço
nele se amava
o desejo de tudo
quando parado na pedra
o mergulho e
quando nadava
lentamente
que para onde ele vá
flores se interponham
nos caminhos
mas era como se um barco ardesse
ante o olhar 
entre os ânimos
e suas marés
o mar obedece
a quem se descobre
nas águas velozes
distantes
outros campos
outros passeios
outras histórias
de outros vales
outros dias
e a sorte
de navegar
em novos
mares
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das refeições...

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"esforça-te em guardá-las, poeta,
por menos numerosas que sejam as que se detêm.
as visões de teu erotismo.
põe-nas, meio ocultas, em tuas frases.
esforça-te em guardá-las, poeta,
quando despertam em teu cérebro,
na noite ou no fulgor do meio-dia."

quando despertam (palavras) - Konstantinos  Kaváfis 
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re_feições

uma mesa não
compõe
um casal
nem os garfos
facas
afiadas
e as taças
e as manchas de vinho
nenhum jantar está servido
sobre essa toalha
de linho
branco
e esses
guardanapos
brancos
como bandeiras
de remissão
pedindo
a paz
nenhum jantar será servido
enquanto
a dança
do casal
não terminar
porque
após se devorarem
os restos
vão
particularmente
para a lixeira
mas os gostos
olhos e gestos
não
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das flores...

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"e quando o circo
dessa vida absurda
me comprime na plataforma
eu sei saltar de costas
e flutuar do nada"
Julio Carvalho
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Memória das Flores

escrevo para me conhecer
e não quero mais 
o sarcasmo do acaso
nem um rascunho de família
nem alimentar o foda-se
não quero aparar as pontas
nem escrever a grosso modo
morder-me
só de gozo
e manter a língua afiada
os poemas em estado de praça
e ao ar livre
o leitor
a primeira vida
a divina comédia
a primeira vista
decerto alguma paixão
e desertos
e seus oásis
a continuar
em pé
e como todos sabem
o que acontece
todo fim de ano
o tempo 
das flores escassas
as marcas daqueles
que crescem
e as marcas
daqueles que murcham
o tempo tem dessas coisas
chamadas 365 dias de ano
que bem nem sei até onde vai isso
que bem eu mal sei lidar com isso
mas então vem certa coragem
na forma de olhos meio apagados
e a sujeira foi se abrindo
no meio da engrenagem do tempo
e da memória
com a sujeira nas mãos
ela foi selecionada
em alta voltagem
com a vantagem
de restar só o liso das palavras
e os contornos terceiros do mundo
ainda assim sobra a beleza
da prévia de tudo
desse escuro
chamado desconhecido
tramado
futuro
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

das mortalidades...

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"Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave."
Orides Fontela
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dizer um poema em voz alta
é como prece 
que você não espera resposta
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as palavras ditas vão embora
mas as palavras não ditas
ficam com a gente
para sempre
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"nada na vida exigirá de nós mais coragem
do que encarar o fato de que ela termina
- mas do outro lado da tristeza está a sabedoria"
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às vezes as coisas são trágicas o bastante 
que acabam se transformando em comédia
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ninguém sabe o que acontece quando se morre
há tantas opiniões quanto pessoas
e algumas pessoas te dirão que sabem com certeza
e elas não estão erradas
na verdade, de certa forma elas tem sorte
porque o resto de nós
até que vejamos algo que faça sentido
até que ouçamos algo 
que acreditamos
nos sentimos meio vazios
e enquanto pensamos nisso
haverá por certo um tempo
para que a fumaça amarela 
que desliza pelas ruas
e esfrega as costas nas vidraças
haverá tempo
haverá tempo
de compor um rosto
para olhares os rostos que te olharem
tempo de matar
tempo de criar
e tempo para todos os trabalhos 
os dias
as mãos
que se erguem e te deixam cair
e escapar uma pergunta
tempo para você e tempo para mim
e tempo ainda para mais cem indecisões
e mais cem visões e revisões
antes do amanhecer
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o peso da vida

gostava de senti-lo à sua maneira
e ouvi-lo crescer dentro de mim
em carne viva
não queria somente
rasgar-me em feridas
não queria apenas esta vocação paciente
de lavrador
mas também a da terra
e que é onde piso
descalço
assumo o amor como um ofício
onde tenho que melhorar
repetir até a perfeição dos ossos
repetir quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e fazer sentido
deixar nele crescer o sol
até tarde
deixe-o ser a asa da imaginação
a casa da razão
só nunca deixe que sobre nada
para não virar memória

Adaptado de Eduardo White
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do meio da calçada
ao centro do mundo
inteiro
não existe
solidão
quando
as palavras
são pequenos trechos
das coisas
invisíveis

— com Lino Mukurruza.
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Sobre Nelson Rodrigues:

"Senhor Nelson, a maior parte de suas peças 
e contos tem como tema a traição. 
O que pode nos dizer sobre ela?
Minha cara, só o inimigo não trai nunca.
Ora, do jeito que o senhor está falando 
me dá a entender que há tanto traíras 
quanto cornos em todas as famílias! É isso mesmo?
Não existe família sem adúltera. 
E o homem de bem, por sua vez, 
é um cadáver mal informado – não sabe que morreu. 
E não é só isso. Além disso, tudo passa, 
menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, 
na esquina e nas farmácias, 
há sempre alguém falando nas senhoras que traem.
Por que?
Porque o amor bem sucedido não interessa a ninguém."
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das cicatrizes...

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“Criou asas, sem jamais poder voar” 
Agustina Bessa-Luís
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os dias e as noites passam tão rapidamente 
que só sentimos o voo. 
quando os anos marcam nosso corpo, 
com as dobras, as veias, as rugas, 
o saber sobre as coisas enobrece. 
caminhos percorridos às vezes adiados 
nem sempre notados.
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são pra mim é santo
coisa que nem eu nem você somos
se não tem onde falar
faça o que calar
não se mude
não mude
desabafe
que nem eu 
nem  nós dois
somos
sãos
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as cicatrizes e um nada cego

quero uma porta de entrada para interiores fictícios
quando mais tarde eu arrancarei o coração do peito 
para secá-lo com um trapo e usar limpando 
apenas as coisas mais sujas
matéria de palha
a água da calha
barrenta
imunda
a ferragem do coração
emoção morta
alma na palma da mão
escovada
o tecido
violentamente
arrancado
com aquelas cicatrizes
em dois dias
acidentes
de duas pessoas
diferentes
mas não era no corpo
que as cicatrizes
apareciam
elas estavam onde
o coração
permanecia
mais
sujo

(um olhar de fora
menos atento
percebe
tudo)
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a beleza é uma profissão
enquanto artista
ou poeta
aos olhos de quem
cria
sua cria é sua arte
que vem da expressão
do excesso engasgado
do medo da solidão
de não ser compreendido
por forma
coisa ou razão
um artista tem na beleza
o modo impresso
o ímpeto
a força na construção 
do que não soube
do que não pode reproduzir
de outra forma
a não ser que
seja
intensa
forte
e
plena
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você é um chato sempre agora?
que suas dores são agudas?
pontiagudas?
e eu vou com flores
suas dores que se danem
sua obrigação é de não faltar
até que eu e minhas rimas
se cansem
e eu me fartar
dab ataque
rehab rebate
arranque
as algemas
os ruídos
as rimas
com 
pelo, apêlo, apelo, apego
pego pelo meio
e faço rimar
a força
com a forca
e a rima do silêncio
eu faço você
navegar
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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

das dispersões,,,

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"não mente sempre a arte?
e não é
quando mente mais
que ela se revela mais criativa?"
Konstantino Kaváfis
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me beija
sem muita conversa
porque
o amor em
São Paulo
tem pressa
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penso medir
tudo
com alguns
passos
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sou devoto do espanto
o susto é o meu idioma
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permanência
objeto ficante
permanência
objeto invisível
como
ter alma para pedra
metal
água e planta
e todos os lugares
elevados
à
soma infinita
de meus impossíveis
desejos
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basta friccionar nada

a gafe de comer
sem garfo e faca
no pescoço
é lenço amordaçado
de fome
o prato
resolvido
devolvido
sem nada
quando o nada
é que foi
engolido
garganta abaixo
desce
a vergonha:
carne crua
de fantasmas
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vicie, cante, conte, coma,
devore e ache um canto
e crave a letra na mão de ferro feito forja
use até a corja se possível
e o sumo
sacerdote
dote de palavras
e pronto
poesia
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a lâmina
nasce do inominável agir
do ímpeto
do deslocar-se de si
desastrar
destratar
do fio
desdobrar
do corte
desobrar
interrupção estilhaços tensões
subtrações de si
da lâmina ávida de vazios
onde sequer exista espaço
para introduzir a questão
da lâmina disjuntiva feroz aguda
jugular
despida rápida
do avesso do avesso do avesso
da bainha
intrépida fugaz
“Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva”
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eu me proponho a cismar
sobre o que seria a Arte
depois de uma certa conversa:
seriam algumas datas
e linhas e outras incertas
lembranças
mas que a tudo me afeiçoo
quase imperceptivelmente
unindo as impressões
sensações e desejos
e mais alguns imprevistos
de amores incompletos
e a Ela me entrego
em forma de poesia
até completar a vida
unindo os dias

Adaptado de
"O que eu trouxe à arte"
de Konstantino Kaváfis
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a mentira
é a verdade
velha
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CRIAÇÃO

PASMEM
NO
ESFORSUFOCO
DAS
BORBOLETRAS
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meu luto
não é por quem morreu
meu luto é
pelos vivos
que estão mortos
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toco poros
amarras
praias eu toco
teclas de nervos
molas
peles que me tocam
cicatrizes e cinzas
típicos ventres
e gentes e vermes
toco
solos soltos
ressacas
estertores
toco e mais toco
e nada
fileiras de ausências
inconsistentes
corpos
que tu
que o que
que flautas
que faltas
que abismos
que máscaras
que solidões ocas
que se calem as bocas
que sim que não
que sina que me abandona o toque
que reflexos
que complexos
que fundos
que materiais brutos
que bruxos
que chaves
que ingredientes noturnos
portas fechadas que não abrem
que nada toco
em tudo

Adaptado de Tropos
Olivério Girondo
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todo sono sonho
e todo espectro aposto
nem o mar mais comigo
vaza
nem ser um e o outro
e sigo e me sigo
persigo o que vou
o mais longe
o mais longe que posso
saído de dentro de mim
um vértice de galáxias
de sêmen de mistério
e no mais a chuva
enquanto se abrem as portas
e os pulsos
e os poros
raramor
acontece
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quase dormindo
na entressafra
do sonho
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o amor deve ser impossível para nos despojar de certas defesas, 
de valores que não nos falam nada, 
pois o teste impossível exige nossa exposição, 
uma experiencia de solidão no qual nossa mascara é inútil e,
então, conseguimos alçar o voo de uma individualidade 
que ultrapassa o lugar esmagador de nossa pessoa. 
neste lugar peculiar os deuses se manifestam, 
pois eles se revelam apenas nestes momentos impossíveis,
solitários. 
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é difícil é ser feliz
sem ralar os joelhos
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A poesia é um beijo prolonguíssimo 
A poesia são licores estranhos 
A poesia é o balbuciar de gente que acabou de nascer 
A poesia são páginas radioativas 
A poesia é a arte de Kandisnsky 
A poesia são estupros coletivos 
A poesia é uma disciplina samurai 
A poesia são meus cabelos brancos 
A poesia é minha orientação sexual
.....................................................................

é difícil dar nó em pingo d'água, 
olho de água e cachoeira, 
água é mole a vida inteira 
nunca vai se amarrar.
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