quinta-feira, 9 de outubro de 2014

das montagens...

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"a luz que ofusca nossos olhos é escuridão para nós
só amanhece o dia 
para o qual estamos acordados
mais dia está por raiar
o sol não passa de uma estrela matutina"
Walden ou A Vida nos Bosques
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Vanderlei Guedes - Fotógrafo



câmera

eu gosto de ficar sozinho
o sol é nada mais que uma estrela da manhã
o mais selvagem som
enorme
faz a floresta soar distante
um tilintar  fraco ligado aos meus ouvidos
algumas raízes alcançando muito abaixo
da casa
raízes tremendo com sons delirantes
por falta de sono  e de fome
predominantemente azul
misturado com o amarelo da areia
o brilho do sol é a cor da água
eu costumava admirar a aura de luz em torno
da minha sombra
eu me imaginava como um dos escolhidos
escrevi esse texto com uma certa 
economia
e cortando idéias
e querendo viver numa floresta
distante de qualquer pessoa
numa casa que eu mesmo construiria
e ganharia a vida fazendo tudo com minhas próprias mãos
viveria lá por dois anos e dois meses
mas no momento eu ou um visitante da vida civilizada
novamente entre estranhos
e aqui ouvi um som grave e distante
mas alto e impressionante
diferente de tudo o que já tinha ouvido
gradualmente 
inchando
aumentando
como algo final
universal e memorável
então eu corri e fugi
os raios que passaram pela janela
não mais serão lembrados
quando a cortina for fechada
as melhores qualidades da minha natureza
como o florescer das frutas pode ser preservado
ou algo encravado no gelo
uma corrente fluindo na minha direção
através de um vale cheio de árvores antigas
mas não havia nenhum fluxo
e mesmo assim bebi daquilo tudo por tanto tempo
até ficar totalmente saciado
pela mesma razão prefiro o céu natural
das vezes que consigo ver o azul
das vezes que fotografo
quando estou azul
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das fragilidades...

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"o amor,
o verdadeiro amor
eu só conheço nas ausências."
Julio Carvalho
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fragilidade
do olho
que não vê
sob o holofote da lua
bem lá na esquina do acaso 
onde perambulam as sombras
incertos na rua
em busca do romance raso
se entreolham
desconfiados
e o olho com defeito
se esconde entre as intenções
o meu mundo está feio
o meu olhar
de sombras
precisa cair em certas mãos
mãos que misturam palavras
e verbos
misturam sentidos
escrevem poemas
mas a vontade de ser certeiro
não deixa o olhar inteiro
acontecer
se manifestar
então não há aquele aquele 
que fala primeiro
nem o outro
que cede o carinho
as sombras dos olhos se misturam
com as sombras da noite
numa dança imediata
ninguém enxerga mais nada
nessa 
dança
desse breve amor
vira -lata
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

das confissões...

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"Confissão: meu mal é o mal do poeta.
É o mal do idiota. 
Eu lhe vejo tijolos e principio desde já a fantasiar castelos."
Sammis Reachers
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não presto
nunca prestei para ser sequência
sou um a cada hora do dia
tentaram me colocar numa forma
o máximo que conseguiram
foi me ver escapando pelas frestas
assustaram
e me reacordaram de um sono de gilete
tão afiado foi o susto
que me aumentaram o tamanho dos dias
do mesmo tamanho de certas saudades
não presto
não sei se algum dia vou prestar
tentei óculos escuros nas minhas perdas
e mesmo assim ainda enxergo mal
queria ter coração algumas veses rude
só consegui lacrimejar até meus pés
estacionarem sobre poças
tenho fomes
e só presto para o uso geral e irrestrito
do anormal dos anos que ainda me faltam
enquanto isso
como pessoas
as esfinges devoram seus enigmas
enquanto isso
sobreviventes
dos meus circos e das minhas próprias guerras
enquanto isso
é quando descubro
que o essencial é me reconhecer em todos os afetos
e seguir carregando as minhas marcas
sem cicatrizes
então por isso nunca me contenho
e deixo que rolem as necessárias pedras
nos rios da minha fala
................................................................................

da poeira das coisas
e do amor líquido
nasce uma poesia petrificada
enquanto as cores da tarde
agonizam sob meus olhos
fixadas no horizonte chumbo
(um poeta é mais que horizontes)
e quando chega a noite
a certeza do esquecimento
provoca
um resto de azul
silêncio marítimo que me devora
um silêncio tecido de dor e violinos
................................................................................

dias
passando pela vida
inutilmente
lúcido
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sábado, 4 de outubro de 2014

das possibilidades...

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"um pouco de possível,
senão eu sufoco"
Gilles Deleuze

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a semente para um sonho
abre entre as minhas mãos
e desaba na terra
cai entre pedras nativas
onde a luz é pouca
e irrompe pela manhã
feito animal fugidio
o sonho indisposto
apanha na sua nascente
um rebento
epitáfio sobre todas as pedras
mas cresce e fica até hesitar o dia
enamorado de sua transparência
e vontade
uma alma que sonha não suporta seu corpo
mesmo que a luz seja indiferente
o nascer é inevitável
o sonho é absurdo
por mais absurdo
faz crescer uma árvore na fronte
cresce para dentro
suas raízes são veias
nervos seus galhos
sua confusão 
uma folhagem de pensamentos
teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são sonhos de sangue
são granadas de luz
                            e quando amanhece
na noite do corpo
ali dentro
bem na frente
a árvore do sonho fala:
                   chegue mais perto
ouviu?
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

dos princípios...

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“Levanto-me.
Vou supor-me a resistir. 
Lentamente (sem) fugir”
Eduardo White
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no princípio *

houve luz bastante para o espírito
mover-se livremente à flor do sol
oculto em pleno dia
no princípio
houve silêncio até para escutar-se
o germinar de uma alegria
abraçada ao calor do meio-dia
e havia, no princípio
tão vegetal quietude, tão severa
que se estendia a queda de cada lágrima
das frontes dos heróis de cada dia
havia então mais luz em nossa via
menos intensidade na farsa da agonia
mais êxtase no mito da alegria
agora alado galopando em céus irados
por cima de qualquer muro de crença
por cima de qualquer fosso de sexo
revisitado de longe 
percebo que
o mundo que venci deu-me um amor
amor feito de insulto e pranto e riso
amor que forçou as portas dos infernos
amor que galgou o cume ao paraíso
amor que dorme e treme
que desperta
e torna contra mim
e me devora
minha ruína em cantos de vitória
e depois disso
que faço deste dia
que me acontece
agora?
pegá-lo pela cauda, antes da hora
um vermelho antes de roubar a minha festa
ou colocá-lo em música
em palavra
poesia
ou gravá-lo na pedra
depois da chuva
que o sol lavra?
difícil é guardá-lo em mim
que um dia assim
tremenda noite
jogado na cama
desfeito
escravo desse fato
que me fugiu
por mim 
por minha voz 
poesia 
que vai se envolver
entre aurora
e meio-dia 
um homem e sua hora
e a sua vida toda linguagem
frase perfeita sempre
talvez verso
geralmente sem qualquer adjetivo
coluna sem ornamento
geralmente partida
vida toda linguagem
há entretanto um verbo
um verbo sempre
e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período
talvez verso
talvez interjeição
verso, verso, inverso, inverno
vida toda linguagem
leite jorrado em fonte adolescente
sêmen de homens maduros
verbo, verbo, verso, inverso, inverno
vida toda linguagem
bem o conhecem velhos que repetem
contra as mesmas situações
imagens em espelhos repetidos
que lhes estrelam trajetórias confusas
vida toda linguagem 
                                    como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
                      amar, fazer, destruir
julgar esses nomes
homem, homem e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada
vida toda linguagem
vida sempre perfeita
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem
nos terraços do inverno
                                                              contra a chuva
essa garoa
tenta fazê-la eterna 
como se lhe faltasse
outra, imortal relaxe
à vida que é perfeita
                  língua
                        eterna
beijo
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*baseado em vários poemas de Mário Faustino
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das mágoas...

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"um passado desconhecido é um passado cheio de segredos
segredos que ninguém sabe
os segredos que ninguém sabe não se pode esconder
tampouco se pode contar
não se pode compartilhar
tampouco é possível livrar-se deles
os segredos que ninguém sabe estão aí
sempre
não há forma de esquecê-los
como se vai esquecer de algo que não se conhece?
os segredos que ninguém sabe são uma carga muito pesada"
Nuria Barrios
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a mágoa invisível

os seres humanos
tem
pele 
sangue 
suor
e guardam mágoas
eu guardo saudades
dos olhos
dos meus tempos
que eles viam
e eram limpos
e não guardo mais nada
....................................................................

entarde_seres

um poente
apareceu no fim da rua
aberto como um sonho imenso
de qualquer calçada
entre os edifícios
encarcerados
entre as pessoas que
perderam o último voo
o último passo
perderam
qualquer mão corajosa
contra as tristezas
dessa tarde
embora
dentro dos espelhos
ainda more o silêncio
e a escuridão vindo
devagar
é o sangue
das coisas feridas
no ocaso
acaso
onde
todo incerto
se agarra
na tarde mutilada
pelas pobres cores
da noite
vindo
descendo pelas calçadas
povoando
pessoas
....................................................................

outro
tempo
de coisas
breves
e descansos
longos
onde
dores
quaisquer
que fores
seria
a sinfonia
que iguala
homens
e amores
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dos silêncios...

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"importantes, salvo o erro
eram as palavras; o sabor quente do pouco céu
da boca                                         as palavras
inteiras ou pela metade
remendadas no silêncio
da margem,
no corpo, em qualquer lugar de nós"
Breve Leonardo
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todos os silêncios 
e mais alguma coisa

silêncio ao telefone
começou antes
com resíduo de pressa
alguém mais está ali
na respiração
modo-espera
rumor vindo da janela aberta
tempo-pista
tempo-isca
tudo entre algo
imperceptível
silêncio preparado
entre resíduos de vozes
algo imperceptível
inflando
como um grilo assimétrico
no ar parado
barulho de água do chuveiro
barulho do vizinho de cima
tempo intra-rápido
tempo ultra-rápido
silêncio infra-ordinário
entre o tempo que passa
e o tempo que pausa
ruídos siameses
muito grudados
algo imperceptível
talvez três soluços
silêncio ultra-ordinário
mini buracos
espécie de ponto morto
uma corrente de ar
sorrateira
súbita
motor repetido
em fade in out
susto curto que suga
espaço entre
o tempo que mastiga
e o tempo que engole
silêncio rastejando
algo
no ar pesado quase imóvel
ruído de respiração 
em câmera lenta
som de sono mais
insônia sem som
rumor da pele
esticando
ou crescendo
algo entre
tempo que dissolve
e o tempo que dilata
silêncio subcutâneo
rumor de sangue 
circulando rápido
pulso agudo da pele
poros assobiando
(infra-som)
ruído muito escuro
ruído que bóia
para baixo
a pele instável
entre
o tempo-buraco
e o tempo-superfície
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