segunda-feira, 4 de outubro de 2010

dos gostos...

.
"Enquanto a rima descansa
e o coração arranja outro motivo
para não parar de bater..."

Sandra Regina Souza
.
nosurrender
.
ensaborecer

ver ler e só
ver
esse poema
pendendo no galho
feito pesada
fruta
sã

(pode pegar com as duas mãos porque é poema maduro)

e
quando
só eu posso ler
o poema
tem sabor só de um
dos outros que leram
ficam outros gostos
que as coisas das letras não tem
o que faz diferença
é como os outros na lingua
a papila calor
do poema diz que sente
seu tanto de letras
que faz muito
bem

(o poema às vezes feito de uma folha só)

a resposta ao poema é ao sabor de cada lingua
.

domingo, 3 de outubro de 2010

dos signos...

.
"Eu vivo
sem revisitar meus fantasmas
porque se faço isso
eles se divertem.
Eu não."

Roberto Laplagne
.
nadanegra
.
quem te viu quem te ovelha

sua ovelha
nada negra
sua orelha nenhuma regra
(eu não te conto segredos)
um signo além de áries
um mistério
de lã e linhas das mãos
(eu não falo sobre medos)
não escrevo o que não conheço
e nada nega
não mereço
só um terço
de você
eu quero inteiro
uma ovelha

sua lã
me cobrindo
de manhã

eu me aqueço
.

sábado, 2 de outubro de 2010

dos achados...

.
"Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta."
"Eu sou melhor que você" - Moreno Veloso
Composição: Maurício Pacheco




algo de quem

não sabe
algo de quem
não é
aquilo que você olha
algo de quem tem
aquilo que você não quer
algo de quem
não tem
aquilo que você
pode
algo de quê
você quer e sempre
foge
algo de que
o tempo todo você
explode
algo de que alguém vê
e você reaje
algo de que você não sente
mas o outro
resolve
algo que falta a você
e você
não sabe
.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

das nuvens...

.
"Quando se substituí a escrita pelo pensamento,
aqueles que são privados dessa imagem sensível
correm o risco de não perceber mais que uma massa informe
com a qual não sabem o que fazer.
É como se tirassem os flutuadores de cortiça ao aprendiz de natação."
Ferdinand de Saussure.

fog
ilustração de Paulo Alan Deslandes Fragoso
.
fog

estava com
um nevoeiro na minha fala
e entre os olhos tive uma impressão
de ausência
tive poucas coisas
para ouvir
naquela pouca noite só
estava eu e a rua
o ruído era mais o dos carros
e de algumas poucas vozes
e de bêbados atores e de cães atrapalhados e de quase sempre o silêncio
que era a coisa mais bonita do mundo dentro tudo
esse silêncio isso
mesmo era a única coisa que
dispersava
o nevoeiro da minha fala
.

domingo, 19 de setembro de 2010

das parcelas...

.
"A vida pode ser muito melhor do que aquilo que a gente se acostuma."
Gilson Coelho
.



.
cadaumqual

a parte mais estranha de mim
é esta coincidência de que existo
e como eu faço dito isso
se com fala não tem jeito?
eu surgi não sei de onde
e apareço sem mais nem menos
ao menos eu sei o preço
do tamanho das minhas tristezas,
das alegrias alteradas e dos
estados brutos
de diamante da alma
na rua atravessado de veículos
ordinariamente desorganizado
o trânsito é só um sinal
engarrafado dos transtornos de dentro
precisam-se de sinais verdes amarelos vermelhos
em seus devidos lugares
eu sou mais complexo que um poema
não tenho dono nem autor
por isso autorizo-me o tempo todo
a alterações de humor e afeto
com todos os seres humanos
que vivem sob o mesmo meu teto
.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

das criações...

.
"Meu assunto por enquanto é a desordem."
Ferreira Gullar
.


caballa elements by Julio Carvalho
.
Parabellum

Si vis pacem, para bellum

a minha alma a guerra interna
os resultados do puro êxtase criativo
e os sonhos
as passagens sobre as coisas
e os estados das pessoas
as varizes das ruas
a estética e os resultados
da memória não se cogita
ela prega peças
a criação é só um ponto de vista
uma bala, um açoite, uma faca
atravessada numa idéia fixa
a lâmina enferruja e cria
e ferrugem vira poesia
.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

dos resultados...

.
"Pode a propaganda ser poesia, a propaganda inspirar poesia
ou mesmo poder se vender a poesia-propaganda como resultado?"

Julio Carvalho
.

.
da nossa alçada

cada poema feito é uma rua
voltada para cima
a proporção inversa
das coisas vez em sempre
é uma saída

centro da cidade
todo dia é igual
até que uma inspiração
muda tudo
um quase poema ao vivo
entrespelhos na calçada
as luzes e os reflexos
invertido o céu com o chão
céu que é bem vindo em verso

inverso
até o céu vira inspiração
.